:: ficha técnica

 

 

 

 

 

A EUCARISTIA, FONTE DE VIDA DIVINA

Reflexão sobre a Eucaristia, a partir de vários ângulos e tendo em vista as suas múltiplas incidências: bíblica, teológica, patrística, litúrgica e pastoral.

«A vida dos discípulos de Cristo e das comunidades cristãs modelada pela Eucaristia deve traduzir-se numa socialidade eucarística, isto é, num modo colectivo de ser e de agir no mundo, num estilo de sobriedade, de solidariedade e partilha, na ajuda concreta aos mais fracos e necessitados, na proclamação da justiça social e da misericórdia.

É impossível compartilhar o pão eucarístico sem compartilhar o pão de cada dia.

O pão partido na Eucaristia deve levar à partilha do pão na vida quotidiana:

o pão da Palavra de Deus,

o pão da verdade,

o pão da verdadeira liberdade,

o pão da unidade e fraternidade,

o pão do perdão e da reconciliação,

o pão da justiça e da paz.

 

O sacramento do altar e o sacramento do irmão são duas faces da mesma realidade porque a Eucaristia é o sinal eficaz da entrega de Jesus pelos homens, por cada um deles. "Cada homem adquire assim uma luminosidade e um rosto crístico" (O.G. Cardedal, La entraña, 515). Aquele que diz: "Tomai, comei: isto é o meu corpo" (Mt 26,26), é o mesmo que diz: "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,40)».

António Augusto dos Santos Marto

(A Eucaristia, fonte de vida divina,

Bíblica, série científica nº 9, p. 139)

 

:: Publicação por ocasião da XXIII Semana Bíblica Nacional, sobre a EUCARISTIA

 

 

 

 

 

 

 

Pedidos ao Secretariado Bíblico Nacional

 

Ficai connosco, Senhor!

Celebrações, poemas, orações, cânticos, jograis

A Eucaristia nasce do coração apaixonado do Senhor Jesus: "Ele, que amara os seus, levou o seu amor por eles até ao extremo" (Jo 13,1). A Tradição da Igreja viu sempre no sangue que brotou do lado aberto de Cristo na Cruz (Jo 19,34), um símbolo da Eucaristia. Escreve São Boaventura:

 

«Para que do lado de Cristo morto na cruz se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz: "Hão-de olhar para Aquele que trespassaram", a divina providência permitiu que um dos soldados Lhe abrisse com a lança o lado sacrossanto e dele fizesse brotar sangue e água. Este é o preço da nossa redenção, saído daquela divina fonte, isto é, do íntimo do seu Coração, para dar aos sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça e se tornar para aqueles que vivem em Cristo uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna» (LH, III, p. 635).

 

O Cenáculo do Monte Sião, é um dos lugares mais importantes para o Cristianismo. Ali, o Senhor Jesus instituiu a Eucaristia, lavou os pés aos apóstolos, deu-nos o novo mandamento do amor fraterno, deixou-nos o sinal distintivo para sermos seus discípulos, apareceu aos apóstolos em Domingo de Páscoa, derramou o Espírito Santo sobre a Igreja nascente.

Mas... no Cenáculo não se pode celebrar a Eucaristia. Muito perto do Cenáculo, os Franciscanos têm uma igreja onde é possível celebrar e comungar e ficar horas e horas em contemplação eucarística. A chave que abre o sacrário dessa igreja, num simbolismo tão realista, como que penetra num coração, de onde nos vem a maior riqueza da Igreja: Cristo-Eucaristia!

A Eucaristia é o sacramento do imenso amor de Deus. Um Deus que, em Jesus, desce dos céus, coloca um avental à cintura e põe-se de joelhos diante da pessoa humana. Na escola da Eucaristia aprendemos a amar e a servir como Jesus, a entregar a nossa vida para levar alegria aos irmãos, a ter um coração preocupado com a fome e a justiça no mundo, um coração solidário com os que sofrem.

frei Acílio Mendes (ofmcap)

(Eucaristia, 10 letras, 10 bem-aventuranças,

em «Fica connosco, Senhor», p.20-21)

 

 
 

Da Palavra à Eucaristia

«Alimentarmo-nos da Palavra para sermos “servos da Palavra” no trabalho da evangelização: tal é, sem dúvida, uma prioridade da Igreja no início do novo milénio. Deixou de existir, mesmo nos países da antiga evangelização, a situação de “sociedade cristã” que, não obstante as muitas fraquezas que sempre caracterizam tudo o que é humano, tinham explicitamente como ponto de referência os valores evangélicos» (Novo Millenio Ineunte 40).

Depois de ler estas palavras do Papa, esperava tudo menos que ele viesse a proclamar, primeiro, um Ano do Rosário, e agora, um Ano da Eucaristia. Até porque o ano jubilar teve a Eucaristia «no centro» e foi vivido «como ano intensamente eucarístico» (NMI 11), apoiado por Semanas e Congressos.

Mas, há mais: o Papa foi buscar o título e a estrutura da sua Carta Apostólica “Fica connosco, Senhor” ao episódio dos discípulos de Emaús, exclusivo de Lucas 24,13-35. Ora, com base nisso, a conclusão mais lógica seria ter proclamado um Ano da Palavra e um Sínodo sobre “a Palavra de Deus na vida da Igreja”. Pelas suas palavras transcritas acima, e porque a Palavra precede a Eucaristia: é dela que nos vem a fé (Rm 10,17), necessária para acolher e celebrar o sacramento.

Os discípulos de Emaús

De facto, os discípulos de Emaús convidam «o divino Viajante» a entrar em sua casa, reconhecem-no na “fracção do pão” e correm a contá-lo aos Onze, porque Ele, antes, lhes abriu os olhos da fé com a interpretação das Escrituras e lhes aqueceu o coração com o entendimento dos mistérios de Deus.

Ou seja: sem a luz da fé que nos vem das Escrituras, não podemos compreender o mistério da Eucaristia, nem entrar em comunhão com o Deus-connosco; e, sem isso, não há celebração do sacramento nem vida eucarística. «Quando o encontro se torna pleno, à luz da Palavra segue-se a luz que brota do “Pão da vida”» (nº 2; ver 12 e 14). Aliás, o episódio supõe uma experiência de vida eucarística da comunidade lucana, precedida e acompanhada pelo «ensino dos Apóstolos» e de outros «Servidores da Palavra» (Act 2,42; Lc 1,2) e seguida de solidariedade e partilha e um grande zelo apostólico (Act 4,32-33), de que também fala a Carta (nn. 24, 27 e 28).

Mesmo os objectivos mínimos indicados pelo Papa – «reavivar em todas as comunidades cristãs a celebração da Missa dominical e incrementar a adoração eucarística fora da Missa» (nº 29) – supõem esse trabalho de evangelização, prévio ou simultâneo.

As duas “mesas”

«A Eucaristia é luz antes de mais nada porque, em cada Missa, a liturgia da Palavra de Deus precede a liturgia Eucarística, na unidade das duas “mesas” – a da Palavra e a do Pão» (nº 12). Sublinhei as palavras que reforçam, mais uma vez, tudo o que já disse. Mas vale a pena transcrever o texto do Vaticano II, onde o Papa colheu a referência às duas “mesas”: «A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como o fez com o próprio Corpo de Cristo, não deixando, sobretudo na Liturgia, de tomar o pão da vida à mesa tanto da Palavra de Deus como do Corpo de Cristo, nem de o distribuir aos fiéis» (Dei Verbum 21).

Na altura (18.XI.1965), a Igreja não venerava nem distribuía de igual modo o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. E ainda não o faz, hoje. Por isso, aproveitemos a sugestão do Santo Padre: «Passados quarenta anos do Concílio, o Ano da Eucaristia pode constituir uma importante ocasião para as comunidades cristãs fazerem um exame sobre este ponto. De facto, não basta que os textos bíblicos sejam proclamados numa língua compreensível, se tal proclamação não é feita com o cuidado, preparação prévia, escuta devota, silêncio meditativo que são necessários para que a Palavra de Deus toque a vida e a ilumine» (nº 13). Examinar a Palavra no Ano da Eucaristia? «Em tempo propício e fora dele», dizia Paulo (2 Tm 4,2).

Lopes Morgado, ofmcap.

Chefe de Redacção da BÍBLICA

 

.

Copyright © 2000-2008 Difusora Bíblica - Todos os direitos reservados.