Sugestiva entrevista de Lopes Morgado à revista STELLA, reveladora da grande paixão que o entrevistado revela pela representação do Nascimento de Jesus, afinal na linha da tradição Franciscana quando, em Greccio, o «Poverello» de Assis teve a intuição de celebrar, ao vivo, o acontecimento de Belém. Haverá também um NATAL RESIDUAL?

 

 

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José Joaquim Lopes Morgado

é barcelense (natural de Areias de Vilar), tem 64 anos e professou em 1954 na Ordem dos Franciscanos Capuchinhos, emitindo a Profissão Perpétua em 1959.

 

Dos sete anos do Curso Superior para o sacerdócio, seis fê-los em Espanha e o último no Porto, em cuja Sé foi ordenado a 5 de Agosto de 1962. Após 4 anos como professor no Seminário Menor dos Capuchinhos e na Escola Comercial e Industrial de Gondomar, foi director da revista Bíblica, em Lisboa, de 1965 a 1978, cumulando com o encargo de Superior da Fraternidade (1967-1970), Pároco do Calhariz de Benfica (1970-1973), programas na Rádio Renascença (1969-1975), celebração da Eucaristia Dominical na RTP (1970-1973) e Conselheiro Provincial (1969-1975). De 1975 a 1978 fez parte de uma Equipa que lançou os Cursos de Dinamização Bíblica por todo o país.

 

Em 1978-1979 fez, em França, estudos de Comunicação Social com incidência na área da expressão da fé. De regresso, iniciou o cavap – Centro Audiovisual de Apoio à Pastoral – ao nível interno da sua Ordem, criando, entre outros, vários diaporamas depois divulgados pela cooperativa logomedia, de que foi um dos fundadores em 1986. Em 1987 voltou a ser nomeado director da revista Bíblica, até 1999, num total de 25 anos, sendo o Chefe de Redacção desde Setembro de 2000. Desde 1993 faz parte da Fraternidade do Centro Bíblico, em Fátima.

 

Jornalista profissional, praticou as várias formas de comunicação social nas revistas Paz e Bem (1961-1964), Paz e Alegria e agora na Stella (desde Janeiro 2002); nos jornais Comércio de Gondomar (Nota de Semana: 19 Dezembro 1964-17 Dezembro 1966), Diário de Notícias (Domingos de Julho-Novembro 1992) e O Almonda (27 apontamentos sobre “A Música das Palavras”: 26 Fevereiro-26 Novembro 1999); na Rádio Renascença (Novembro 1969-Maio 1975), na RDP 2 (1981-1982) e na TSF (“Como se Visse o invisível”, 12 crónicas: 7 Abril 1996 a 9 Março 1997), tendo também criado vários dos programas 70x7.

 

Publicou

várias obras, repartidas entre a teologia pastoral e a poesia:

 

Agora que nasci

– poema do natal intemporal (1976)

 

Via sacra de Cristo e outras vias (não) sacras, 2 vol. (1977)

 

As mais belas orações da Bíblia (1978)

 

de raiz (1983)

 

Canto de Sol e Sal – Diário do meu país (1983)

 

Para a Festa da Palavra (1984)

 

MATEUS – reino, igreja, comunidades (1986)

 

MARCOS – este Homem era Deus (1987)

 

Mulher Mãe (1987)

 

Roteiro de Natal (1987)

 

LUCAS – ...e paz na terra! (1988)

 

Quem ouvir que entenda

– parábolas dum novo reino (1988)

 

Crer – raízes da minha fé (1988)

 

Felizes! (bem-aventuranças) (1989)

 

Neste Natal (1989)

 

Um Filho nos foi dado – 5 Autos de Natal (1989)

 

Dia da Bíblia

– sugestões e apoios (1995)

 

Caderno para a Minha Mãe (1996)

 

Ao Encontro do Sol – poemOrações (1998)

 

colecção

Jubileu 2000

– 10 Cadernos (1996-2000)

 

 

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PRESÉPIOS

símbolos da fé

e da vida

 

      ENTREVISTA com Lopes Morgado

in: Revista «STELLA»

– Olhando para o seu “currículo”, não é fácil dizer se é um religioso activo, ou contemplativo...

Ainda bem. São Francisco, no princípio da sua conversão, também duvidou se devia dedicar-se a uma coisa ou a outra. E as pessoas a quem consultou foram unânimes em aconselhar que devia dedicar-se às duas, pois Deus não o tinha chamado só para ele. Se quiser saber, o meu grande ideal e aquilo que me fez avançar no meio das hesitações na vocação, foi a vontade que sempre tive de ser missionário, de evangelizar, de pregar. Certamente, pelos bons testemunhos dos missionários que passavam pelo Seminário e nos falavam do seu trabalho. Afinal, como eu costumo dizer, puseram-me a roer papéis...

– Mas não se sente frustrado naquele seu ideal?

Não, absolutamente. Na vida religiosa, como sabe, uma coisa é o nosso projecto pessoal, e outra é o bem comum ou o projecto comunitário. Por outro lado, a vocação não é uma opção individual, mas um chamamento de Deus e uma escolha dos Responsáveis ou da Comunidade. Mas nunca me senti instrumentalizado pela instituição, como peça de uma máquina, pois o apoio recebido levou-me naturalmente a retribuir, como acontece em toda a relação de amor. E apesar de tudo, preguei bastantes missões populares, semanas, novenas e tríduos; orientei retiros e cursos, fiz conferências, trabalhos de rádio e televisão, produzi diaporamas, publiquei livros, escrevi artigos... Também descobri que o trabalho nos meios de comunicação social era uma boa forma actual de ser missionário, de chegar longe mesmo sem sair de casa, como Santa Teresa do Menino Jesus. E com os livros de carácter pastoral, os subsídios publicados na revista e agora através da Internet, tenho procurado apoiar os que vivem nas várias frentes do trabalho apostólico. Como vê, acção não falta.

– Mas não é um trabalho solitário, que corre o risco de ser demasiado teórico?

É solitário, com certeza, enquanto mais longe dos holofotes e dos contactos directos; mas não o considero um trabalho teórico, pois é fruto de descidas ao terreno e as propostas que apresento foram, na sua maioria, vividas, escritas e experimentadas em acções pastorais directas.

 

A história do Natal

– A maior parte da sua vida sacerdotal tem estado ligada ao apostolado bíblico. Quer fazer para os leitores uma síntese histórica/progressiva da celebração do Natal de Jesus?

Uma vez que a Stella sai em Fátima, talvez possamos dizer do Natal o que o cardeal Cerejeira disse de Fátima: não foi a Igreja que impôs o Natal, mas o Natal que se impôs à Igreja. Eu explico. Só muito tardiamente, lá pelo séc. IV, é que a Festa do Natal foi oficializada na Igreja. E o mesmo se diga da representação do nascimento de Jesus, ou Presépio, o mais antigo dos quais se encontra num sarcófago datado de 343 que se conserva no museu sacro de São João de Latrão. Porquê tão tarde? Porque a missão da Igreja primitiva, confiada aos Apóstolos pelo próprio Jesus, foi de anunciar a todos a Boa-Nova do Evangelho.

Ora, no centro deste anúncio da Igreja estava o chamado mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Jesus, conforme vemos no discurso de Pedro na manhã de Pentecostes (ver Act 2,22-24.32.36). O grande fundamento da fé da Igreja era a ressurreição de Cristo, como dizia Paulo em 1 Cor 15,17: «se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã e permaneceis ainda nos vossos pecados» Os Evangelhos também começaram a ser escritos por aqui, e só mais tarde se recuou até à vida pública de Jesus (com base na qual o Papa propôs agora os 5 novos mistérios luminosos) e até à sua infância. Mas a infância já foi escrita à luz da ressurreição, para mostrar que, aquele que na cruz se revelou como Filho de Deus, já o era desde o princípio. O natal daquele Menino não teria interesse, se a sua morte não tivesse sido o que foi e se um grupo insuspeito de pessoas sadias, pela força do Espírito, não se tivesse constituído em testemunha da sua ressurreição. No entanto, muitos pormenores que se contam por aí da infância de Jesus não vêm dos Evangelhos canónicos – vêm dos evangelhos apócrifos, falsamente atribuídos a alguns apóstolos, mas que a Igreja nunca aceitou como inspirados por Deus.

– E porquê o Natal a 25 de Dezembro?

Não foi sempre assim e no Oriente ainda não é. Na tradição apostólica não existiam dados acerca da data do nascimento [=Natal] de Jesus. No princípio vacilou-se entre 20 de Maio, 10 de Janeiro e 6 de Janeiro, festa de Epifania, cuja celebração litúrgica é mais antiga que a do Natal. A data de 25 de Dezembro, muito provavelmente, tem origem pagã. O imperador Aurélio tinha estabelecido em Roma a festa do “nascimento do Sol invicto”, no solstício de Inverno – ou seja, no momento em que o sol baixa mais no horizonte e permanece menos tempo no céu: é o dia mais curto do ano – parecendo que vai “morrer”, mas logo renasce. Os romanos acompanhavam a celebração com prendas.

Os cristãos de Roma, para evangelizarem essa festa, colocaram nela a celebração do nascimento de Jesus. Pelo menos no séc. IV, o Natal já era celebrado em Roma a 25 de Dezembro; entretanto, nas igrejas orientais, continuava a celebrar-se a 6 de Janeiro, juntamente com a Epifania. A grande festa da Igreja era – e voltou a ser, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II – a festa da Páscoa. Teologicamente e liturgicamente. Por isso a Páscoa (e não o Natal) é o centro do ano litúrgico, sendo chamada “festa das festas” e “solenidade das solenidades”.                                                             

Na prática, o que acontece? Acontece que as pessoas se movem mais pelo coração e pelos olhos do que pela teologia; por isso o Natal é mais festejado, até com algumas reminiscências das festas pagãs, embora a Igreja insista em não o embrulharmos no papel dos centros comerciais.  

“Não me sinto coleccionista”

– Sabemos que tem uma tendência especial para as artes. Como aconteceu em si essa atracção para coleccionar presépios?

Diz bem: “aconteceu”. De facto, não me sinto coleccionista e posso mesmo dizer que não tenho tempo nem paciência para sê-lo. O que sei é que o Natal sempre tocou a minha sensibilidade religiosa e fez parte da minha espiritualidade. Basta dizer que quatro dos meus livros de poesia são sobre o Natal, e esses poemas nasceram em todos os meses do ano. Também fiz pelo menos uns quatro programas do Setenta Vezes Sete sobre o Natal, uns dois Toda a Gente é Pessoa com o padre Rego, na RDP, mais um no Programa Ecclesia, outro na TSF, eu sei lá...

A atitude de São Francisco relativamente ao mistério da Encarnação e a sua iniciativa em representar o nascimento de Jesus também me foi firmando cada vez mais nesta relação com o presépio. Tenho sempre um Menino Jesus ou um presépio no meu quarto ou no meu gabinete de trabalho, e ofereci muitos ao longo da vida. Mas nunca tinha coleccionado até há doze anos. Cheguei a dar alguns que hoje estariam entre os dez melhores desta colecção. Porque não era minha intenção guardá-los. Depois, as pessoas foram-se apercebendo desse meu gosto e começaram a oferecer-me presépios. Quando dei por mim, já o meu quarto era um presépio: tantos embrulhos e caixas de cartão tinham-no transformado em gruta, apenas com uma pequena passagem entre a porta de entrada e a “manjedoura” da cama. Não me fazia diferença, pois trabalhava noutro espaço. Nas vésperas do ano 2000, quando me deram um ano sabático e me destinaram a outra casa, é que eu desembrulhei todos os presépios e os expus no local onde se encontram agora.

 

“O presépio era insubstituível

no nosso Natal familiar”

 

"Olhando para trás, talvez tenha andado a compensar uma infância que não tive ou a receber, com efeitos retroactivos, as prendas que nunca me deram no dia de Natal."

 

– Nunca teve prendas no Natal, em pequeno?

Nunca. E eu era o mais novo... Imagine os outros irmãos.

– Então, porquê?

Repare: éramos 11 pessoas em casa, 9 filhos e os pais; os tempos eram difíceis (lembro-me de se ter experimentado moer grainha de uva para fazer pão, pois muito do milho ia para o estrangeiro). Mas o presépio era elemento insubstituível no nosso Natal familiar. O meu pai dizia que, para ele, sem presépio não havia Natal. E para nós, celebrar o nascimento de um Deus que se fez menino pobre, supunha, forçosamente, fazer o presépio. Mas era mesmo fazer. Muitas vezes fazíamos os bonecos de bugalhos, a gruta de raizames de pinheiro (revestidos com musgo no interior, e por fora com hera das paredes). A iluminação era feita com tigelas de sebo; os caminhos, com areia do Cávado. Enfeitava-se tudo com azevinho, muito azevinho, que então não faltava nas bouças da minha terra, e no cimo punha-se uma estrela de papel. Essa era a festa dos rapazes mais novos durante todo o dia, enquanto o pai e os irmãos mais velhos trabalhavam no campo e a mãe com algumas irmãs iam fazendo os mexidos, a aletria, as rabanadas, as batatas com bacalhau, o arroz de polvo (só se comia peixe, porque era dia de abstinência) e as castanhas cozidas.

–Tudo isso, com tanta carência?

É verdade. Era essa a ementa, numa ceia de tirar a barriga de misérias. Sabe que São Francisco queria que nesse dia se espalhasse alimento para as aves pelos caminhos, se desse mais comida aos animais e até as paredes fossem untadas com carne? É o excesso da festa, que faz parte da vida. Mas, voltando à minha família, ao almoço era jejum, mesmo para os mais pequenos, não sei se para nos habituar às leis da Igreja, se para termos mais apetite à noite. Mas era uma provação muito grande para nós, passar a tarde toda a sentir o cheiro agradável que saía pela chaminé sem poder entrar na cozinha.

– E o presépio, onde era colocado?

Era instalado no cincho onde se espremiam as uvas, na parte baixa da casa; outras vezes, num vão que havia por baixo das escadas de pedra, à entrada, se na altura não estava ocupado com alguma ninhada de coelhos ou de pintainhos... Antes da ceia de consoada, havia a cerimónia da inauguração com o acender do pavio das tigelas de sebo.

– Dada a existência da colecção do notável presepista que foi Rui Sequeira, de Portalegre, cujos presépios, incluindo um Machado de Castro, têm sido expostos ao público com tanto êxito, pensa expor os seus presépios?

Já fiz uma primeira Exposição na sala de jantar do Centro Bíblico, no Natal de 1995, aproveitando um Encontro de Natal de todos os Capuchinhos portugueses, abrindo-a também às comunidades residentes em Fátima. Dei-lhe o título de evangelho da vida (e ainda o mantenho), pois decorriam 9 meses sobre a Encíclica homónima que o Papa, não por acaso, assinou a 25 de Março desse ano. Depois, 74 destes presépios foram expostos no Museu de Olaria, em Barcelos, de Novembro de 96 a Janeiro de 97, preparando o jubileu da encarnação no ano 200. Em rigor, eles estão expostos e são visitados desde o ano 2000, embora, devido à exiguidade do espaço, a disposição mais pareça de um acerbo do que de uma galeria de Museu. Apesar de tudo, já foi visitado por muitos grupos que passam pelo Centro Bíblico nas mais diversas actividades, bem como por algumas escolas e muitas famílias e comunidades religiosas.

 

509 presépios de 42 países

 

– Para uma visita em pequenos ou grandes grupos, o que é preciso fazer?

Para uma visita informal e autoguiada, basta contactar por telefone, por fax ou por escrito para a Fraternidade dos Capuchinhos em Fátima (ver caixa). Para uma visita explicada, inclusivamente para uma reflexão, projecção de diaporama, diálogo, oração ou celebração, talvez convenha entender-se comigo, a fim de preparar as coisas em função dos objectivos do grupo; pois o Natal ou os Presépios podem ser vistos e analisados de muitos prismas: história, arte, religião (textos bíblicos), sociedade, família, cultura... Uma vez que esta colecção está integrada no Centro Bíblico dos Capuchinhos, parece-me normal fazer dela, sobretudo, um meio de evangelização, que leve as pessoas a descobrir o Mistério da Encarnação e o Mistério da Vida (relacionado com o da Cruz), e até, a questionar-se quanto ao modo como estamos a celebrar o Natal e como temos deixado que o comércio se apodere dele. Aliás, muitas pessoas têm-me trazido ou enviado presépios porque confiam nesta valência pastoral do Museu.

– Pertence à associação de presepistas?

– Não, e desconheço as condições para aderir a ela.

– Do espólio nacional nesta matéria, quais as obras mais valiosas e artísticas que admira?

Assim de repente, sem pensar muito nem fazer qualquer comparação entre eles, digo apenas que gostei muito dos que vi na Basílica da Estrela, na Sé de Lisboa, na Capela da Vista Alegre em Ílhavo, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (da Carvalheira), no Museu de Arte Sacra e Etnologia, em Fátima, e em casa de presepistas amigos, como o dr. Paulo Trindade Ferreira e o Major-General Canha da Silva.

– Quantos presépios tem presentemente a sua colecção?

Tem 509 presépios, sem incluir medalhas e pratos de várias colecções.

– Quantas nacionalidades estão representadas no seu espólio?

Quarenta e dois. Talvez interesse o nome dos países: África do Sul, Alemanha, Angola, Argentina, Bangladesh, Bolívia, Brasil, Cabo Verde, Checoslováquia, Chile, China, Egipto, El Salvador, Equador, Espanha, Filipinas, França, Grécia, Guiné-Bissau, Haiti, Índia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, Madagáscar, México, Moçambique, Níger, Palestina, Peru, Polónia, Portugal, Rwanda, Senegal, Tailândia, Tanzânia, Uruguai, Venezuela, Zaire, Zimbabwe.

– Fale-nos dos diferentes materiais de que são formados os seus presépios.

Há um pouco de tudo: do mármore da África do Sul à pedra huanamanga do Peru, do papel marché das Filipinas ao barro de Barcelos, do biscuit de Nápoles ao cristal Atlantis assinado por Cristina Leiria, passando pelo cristal d’Arques, de França, o cristal da Alemanha e o cristal de Morano, na Itália; da madeira de jacarandá do Zimbawe, da oliveira de Israel e do pau-santo de Angola, à cana de bambu das Filipinas e do Peru; da madrepérola da Palestina e do ouro de Toledo, à prata da Itália e da Venezuela; da porcelana da Vista Alegre, à cerâmica de Lladró, em Valência, e de Aracena, em Huelva, passando pela de Barcelos; do geode do Brasil, aos registos de Portugal; da serapilheira do Algarve, ao bordado da Madeira; do xisto e do ferro do Alentejo, à pura cera de abelha da Itália, à miga de pão embebida em cola, do Peru, e à caixa de fósforos com reproduções do Museu Nacional de Arte Antiga, de Lisboa...

– Em termos de valor material, que peças possui?

Além do que acabo de dizer, e em termos genéricos, posso acrescentar que, dos preços que chegaram ao meu conhecimento, vão de 450 contos em 1996 até umas centenas de escudos. Isto, os custos “materiais”, sem atender ao valor estimativo nem à valorização desde a altura da compra. Infelizmente não tenho nenhum “antigo”. O mais antigo é de 1930 e trata-se de uma Fuga para o Egipto em barro, de José Moreira, de Estremoz, já falecido. Por isso, quem dispuser de algum mais antigo, já sabe um possível destinatário ou depositário no futuro Museu...

– Em termos de expressão plástica, que peças destacaria?

Sem que isso signifique menosprezo pelas outras, destaco duas pelo seu contraste: a reprodução artesanal de um presépio napolitano do séc. XVIII, em biscuit, com tiragem limitada e registada, e um original em cortiça feito este ano pelo senhor Verdasca, um octogenário de Évora. Pelo contraste dos materiais, pela grande variedade de elementos (de que a maioria dos presépios, hoje, normalmente, escasseia) e pela finura no trato do pormenor.

– E em pormenores de explicitação do Mistério da Encarnação, quais são os mais expressivos?

Em teoria, qualquer expressão em qualquer linguagem ou cultura é legítima, pois pela Encarnação o Filho de Deus tornou-se filho do homem – tornando-se irmão de todos, embora fosse devedor da cultura e dos valores do povo a que pertencia a sua família humana. Se pensarmos que Jesus disse «o que fizerdes a qualquer um dos mais pequeninos a mim o fazeis», se calhar, o que melhor exprime o Mistério da Encarnação será o mais simples, despojado e pobre de todos; ou aquele que foi feito ou oferecido com mais amor, ou... A isto acrescentaria que, ultimamente, tenho sido sensível aos que incorporam, no mesmo conjunto, o Cristo de Belém e o do Calvário, precisamente por aquilo que disse a propósito da história bíblica do Natal e das duas devoções polares e complementares de São Francisco à Encarnação e à Paixão.

– Tratando-se de um religioso com votos de pobreza e obediência, sujeito portanto a uma certa restrição económica, como lhe foi possível obter tão numeroso, interessante e variado espólio?

Destes 509 presépios, só uns trinta, no máximo, foram comprados por mim ou por algum dos meus confrades. E não foram, certamente, os mais caros! Como já disse, várias pessoas amigas começaram a oferecer-me presépios quando se aperceberam de que eu tinha este gosto. As peças mais valiosas e variadas devo-as a um núcleo de quatro a seis pessoas, que evidentemente não querem publicitar o nome porque bem sabem o espírito evangélico com que estas coisas devem ser feitas, mas a quem agradeço muito em nome de todos os que hão-de beneficiar disto. E a melhor forma de lhes agradecer, será pôr os presépios ao serviço da evangelização e da cultura.

– Como considera este património: de carácter pessoal, dado que muito de si nele está investido, ou de carácter congregacional, uma vez que, pelo voto de pobreza, não deve possuir bens?

A resposta é sim. Como quem diz: as duas coisas. Evidentemente que a propriedade é da Ordem a que pertenço; tanto que, como disse, quando em fins de 1999 me destinaram a outra casa, eu coloquei aqui todos os presépios à vista, pois era aqui que eles iriam ficar e eu não iria levar nenhum comigo nem interferir no futuro destino disto. Já tinha tirado o coração daqui. Ao voltar para a revista Bíblica, devido à morte de três confrades ocorrida em 2000, encarreguei-me novamente deles, uma vez que, de facto, me envolvi emocionalmente (mas não cupidamente) nisto. Os Irmãos bem sabem que o património é de toda a Fraternidade Provincial.

– Em termos de futuro, o que pensa fazer desta magnífica colecção?

Pensamos avançar dentro de algum tempo para um Museu do Presépio, pois só assim se justifica juntar uma quantidade destas. Já podia estar feito, pois tenho o apoio dos Superiores, mas tem havido hesitação entre o espaço e o modelo de organização.

– Pensa dar continuidade e este seu hobby?

Pelo que já disse, suponho que a continuidade está garantida, embora eu vá dizendo às pessoas amigas que, a partir de agora, interessa apostar em menos peças mas em peças únicas e de mais qualidade. Quanto a mim, não sinto que seja, sequer, um hobby nem me quero prender a isto. De facto, seria um bom entretenimento para o tempo da reforma, cuja idade estou a atingir. Porém, como na Igreja não há crise de emprego, mas de empregados, já me habituei à ideia de que será uma obra para os meus “netos”...

COMO VISITAR OS

PRESÉPIOS

 

 

 

Para visitar esta Exposição permanente de Presépios sob o tema EVANGELHO DA VIDA, basta contactar a Fraternidade dos Franciscanos Capuchinhos, em Fátima:  

l Directamente: Avenida Beato Nuno, 405. Descer pela estrada de alcatrão frente ao portão de entrada: a meio, à esquerda, encontra as letras Fraternidade dos Franciscanos Capuchinhos; por baixo, dentro de um alpendre, fica a campainha para chamar.  

 

 
 

l Telefone: 249.539.390  l Fax: 249.539.399

 e-mail:

lopes.morgado@gmail.com

 
 

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