DE CRISTO, PALAVRA DO PAI - À IGREJA, COMUNIDADE DA PALAVRA
esperança a esperança:  
 

Resumo do artigo publicado em Bíblica-série científica, nº 13, 2004, p.65-98.

 

1. CRISTO, PALAVRA DO PAI


Se a Igreja foi convocada para ser a mediadora, sinal e instrumento do diálogo entre Deus e a humanidade, isso significa que ela terá que ser a primeira a manter esse diálogo. Ora o diálogo da Igreja com o seu Senhor consiste, em primeiro lugar, na escuta da sua Palavra. É na Igreja que deve ressoar essa Palavra (DV 8).

1.1. A Palavra e as modernas ciências da linguagem. O que é a “palavra de Deus”? As modernas ciências da linguagem dão à palavra um carácter tipicamente interpessoal, existencial, como de um ser-para-o-outro. Esta carga dinâmica e altamente pessoal da palavra foi descoberta pela filosofia e psicologia da linguagem, que estudam as suas diferentes propriedades.

1.2. Termos bíblicos para dizer “palavra”. É numeroso o vocabulário para dizer “palavra”, na Bíblia. Dabar, em hebraico, e logos e rhêma, em grego, são os mais comuns. Dabar significa o objecto e o seu nome (palavra). Logos exprime um sistema de pensamento.

1.3. Jesus, o logos, Palavra eterna dita à humanidade. O Filho de Deus veio ao mundo como Palavra (logos) de Deus, ou seja, o Revelador, por excelência, do rosto do próprio Deus. Deste modo, Cristo foi a Palavra completa dada pelo Pai à humanidade (Jo 1,1s).

1.3.1. Jesus, palavra incriada e incarnada. As características da palavra realizam-se plenamente apenas em Deus. Ele diz-se totalmente na Palavra encarnada, que é Cristo.

1.3.2. A descida (synkatábasis) da Palavra. Os profetas apresentaram-se como arautos e testemunhas de uma palavra de Deus, enviada à Terra pelo seu Espírito, que tem em Cristo, Palavra incarnada, a sua plenitude.
* O logos que desce do Alto à condição humana é, pois, a verdadeira e única Palavra. João, no Prólogo, considera Jesus como Palavra/Sabedoria eterna (Jo 1,1-14); o mesmo acontecendo noutros escritos joânicos (1 Jo 1,1; Ap 19,13).
* O logos, a Palavra, fez-se uma Pessoa, em Jesus Cristo. Portanto, pela Incarnação do logos eterno, a Revelação cristã, ao mesmo tempo que é Revelação pela palavra, é também Revelação por este Acontecimento.

1.3.3. O logos centro da Revelação divina. A temática do logos/Verbo revelador do Pai apresenta-nos a temática de Cristo, como centro da Revelação, o Mediador, por excelência, porque “fala as palavras de Deus” à humanidade (DV 2.4; ver Mt 11,27; Jo 1,1-14; 14,6.9.17...), cumprindo a ordem que lhe foi confiada pelo Pai. É plenitude da Palavra revelada, porque, nele, o Pai se revela definitiva e plenamente.

1.4. Sacramentalidade da Palavra. Por tudo isto, se pode falar da sacramentalidade da Palavra de Deus. A Incarnação exerce um papel central no eixo Revelação-Incarnação-Sacramento, porque Cristo é o centro da História e da Revelação e sua “plenitude”. É Ele que dá sentido ao “antes” e ao “depois” (DV 2.4; ver Ef 1,9-10; 3,4-5). É uma revelação incarnada na História, que torna visível o Deus invisível. O Espírito está por detrás das palavras da Bíblia, como está por detrás das espécies sacramentais da Eucaristia (DV 21).

1.5. A Palavra revela o rosto do Deus-amor. A palavra, como interpelação, é sobretudo “provocação” de um eu a um tu, a um outro. Por isso, a Palavra tende sempre para o diálogo, para provocar uma resposta do outro. Essa resposta a Deus é a conversão, a mudança de sistema de vida (Mt 4,19-22; Jo 13,12-17; Act 2,14-47). No silêncio da linguagem da Bíblia, descubro um Tu divino, que me aparece nas entrelinhas de um texto, que só aparentemente é igual a tantos outros. Um Tu que con-descendeu e se dignou tocar o chão do meu nada, do meu não-ser, falando-me em palavras humanas, a fim de eu compreender algo do seu Ser, e sobretudo do seu amor.

1.6. A Palavra eficaz. Qualquer palavra leva consigo a marca da eficácia. Quando uma palavra sai da minha boca produz sempre algum efeito. Qualquer palavra humana só é plenamente palavra eficaz, isto é, meio de comunicação, de comunhão, quando é aceite pelo tu. No Antigo Testamento, a palavra eficaz por excelência é a Palavra criadora do mundo e de Israel. As Dez palavras são gravadas nas pedras (Ex 24,4.12; 31,18; 32,16).

1.7. Jesus exerceu, de facto, o ministério da Palavra. O título do Mestre é um dos mais comuns de Jesus, quando trilhava, qual profeta da palavra, os caminhos da Palestina: nas praças, no Templo, nas cidades e aldeias. Jesus reuniu à sua volta um grupo de discípulos e até usou os mesmos métodos dos rabinos: exortação, comparação, parábola, oráculo… No entanto, Jesus marca algumas diferenças em relação aos rabinos ... E chamou discípulos para, a partir deles, fundar um Povo da Palavra. Com a sua vinda ao mundo, Jesus refez a caminhada que vinha do Antigo Testamento, em ordem a criar um novo povo da Palavra.

2. A IGREJA, COMUNIDADE DA PALAVRA


2.1. A Bíblia nasce na Igreja, para ser o Livro da Igreja; mas a Palavra de Deus está na raiz da Igreja. Estas afirmações constituem o núcleo de quanto vamos dizer nesta segunda parte. A Igreja alimenta-se da Palavra e o próprio Magistério só o pode ser, se se deixar alimentar e guiar por esta palavra (DV 1.10).


2.2. As primeiras comunidades da Palavra. Os primeiros cristãos estavam convencidos de que, no Filho, tinham sido gerados como filhos, pela Palavra do Pai e que viviam em tal condição (Jo 1,12; 1 Jo 3,1-2); e, aos que aceitaram a Palavra, fora-lhes concedido o mesmo Espírito profético de Jesus (Act 2,1-21).

2.3. Jesus e os escritores do Novo Testamento têm consciência de continuar a comunidade do Antigo Testamento. Para referir a nova Comunidade, é utilizado o termo que traduz, na versão grega dos LXX, o termo hebraico Qahal. É aekklesia (Igreja, comunidade)quevem de um outro que significa “chamar” de todos os lados. A “Igreja” leva em si mesma uma raiz de universalismo (Rm 9,24; Ef 4,4-6; ver Act 2,39; Is 57,19) e poderia definir-se, como “comunidade dos chamados” pela Palavra de Deus. Este Povo de Deus tinha consciência de ser uma comunidade convocada pela Palavra. A comunidade do Povo de Deus do Antigo Testamento, ao chamar-se Qahal Jahvé, (no Novo Testamento, ekklesia - igreja, comunidade), tem consciência de ser uma comunidade convocada pela Palavra, caracteriza-se por ser uma comunidade de escuta. Não se reúne para ver a Deus, mas para o escutar.

2.4. A tradição das “palavras” de Jesus constitui a base dos escritos do Novo Testamento. Os Doze sentiram-se depositários de uma Palavra que não era deles, mas que deviam “entregar” às gerações futuras, numa “tradição” contínua e permanente. Este termo tornou-se um termo técnico para traduzir a premente obrigação de anunciar a todos os povos a Palavra escutada dos lábios de Jesus (Mt 28,16-20).

2.5. Carácter interpelativo e apelativo da Palavra. A Resposta orante e Missionária. A Palavra de Deus é sobretudo a oferta do diálogo do Outro, do amigo “invisível”, em ordem a receber uma resposta do meu eu. A DV 2, 8 e 21 sublinha este carácter interpelativo da Palavra. Compreender o sentido profundo da Escritura significa precisamente descobrir que Deus me interpela, se dirige a mim (DV 12). A oração cristã só se entende nesta relação com a Palavra, pois ela leva necessariamente à oração, constituindo, assim, dois correlativos que mutuamente se implicam. A oração não é mais do que a ressonância da Palavra dentro do coração do leitor-ouvinte. Deste modo, a Palavra de Deus, por um lado, e a oração como sua resposta, por outro, constituem uma estrutura dialogal, e esta constituiu a essência da relação entre Deus e a humanidade.