SALMOS IMPRECATÓRIOS
esperança a esperança:  
 

O saltério é um livro de belas orações e não de orações “devotas”. Rezamos os Salmos, não só pela sua “unção” e beleza, mas sobretudo porque é um livro inspirado por Deus e rezado, desde sempre, pelo povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Será justo “purificar” o Saltério das “imprecações” e outros “palavrões” que ferem os piedosos ouvidos de algumas pessoas (foram suprimidos da liturgia os Sl 58; 83; 109...). Não será preferível estudar o seu significado? Este é um dos géneros literários mais interessantes de Salmos.

 

 

 

Certas expressões dos Salmos põem-nos os cabelos de pé. Parecem sair da boca de ditadores (Sl 137,8-9; 109,1-3.6-13).


* Geralmente, trata-se de súplicas a Deus e não de explosões de violência contra alguém. Pede-se a violência de Deus e não a própria. É Ele quem faz a justiça. E pede-se com frequência que Deus elimine a fonte da injustiça. Porque só Ele é o Senhor.


* Estas palavras de maldição tinham valor mágico, para afastar o mal. Eram armas de ataque e de defesa... Poderíamos dizer hoje estas palavras contra outro tipo de inimigos. Contra os sistemas do mal e não contra as pessoas.


* Não existia ainda o mandamento novo do amor (Mt 5,39.43-48; 18,21-22).


* Dizem-nos que o Mal existe e é preciso lutar contra ele.

 

 

ALGUNS PRINCÍPIOS PARA COMPREENDER ESTES SALMOS


1. Situá-los no contexto: literário, cultural e religioso do Médio Oriente Antigo. Sem esta condição, nunca entenderemos estes – e outros – textos da Bíblia.


2. Não são “imorais”, porque são inspirados. Linguagem humana da Bíblia. Podem até ser moralizantes (“odiar”: ver Mt 10,37; Lc 14,26).


3. O grande problema visado é o do mal e não tanto o dos maus.


4. Não podemos pedir ao povo do Antigo Testamento os sentimentos de caridade exigidos ao do NT. Princípio da pedagogia divina do Antigo Testamento para o Novo.


5. Ter em conta os sub-géneros destes Salmos: Cliché dos inimigos do rei (18,32-51; 20; 21; 45; 72; 101; 110; 132...); inimigos cósmicos, nos Salmos da Realeza de Javé (47; 93; 96; 97; 98; 100); Salmos sobre inimigos nacionais; Salmos de doença (Job 32,1s; 38,12-21; 39,12; 41,6-11; 109,2); Salmos contra inimigos sociais (juízes corruptos: 58; 82…).


6. Ter em conta a linguagem altamente poética: metáfora da guerra, que se opõe à da Aliança, da caça (91,3.5; 124,7...), em que os inimigos são comparados a animais ferozes (3,8; 83,14-19; 109; 137,8-9). A hipérbole... Exprimem a confiança absoluta no Deus Protector do justo.


7. A linguagem da imprecação-maldição era normal e tinha sentido mágico e encantatório: A Bíblia conserva o cliché literário, mas purifica o conteúdo (ver Sl 69,23-29; 104,35; 109,6-20; Nm 23-24).


8. Esta linguagem faz parte da psicologia semita: este povo “ferve em pouca água”, necessita de expressões de catársis, é ardente, desabafa as suas revoltas diante de Deus e usa a repetição como desenvolvimento do discurso.


9. O povo da Bíblia só muito tarde conheceu a retribuição para além da morte: por isso, exige que Deus faça toda a justiça, já neste mundo, em conformidade com as leis da Aliança (Dn 12,2; 2 Mac 7,9.11.14.23.29) A Lei do Talião (Ex 21,23-24; 2 Sm 12,5-6) ajudou a reprimir brutalidades e prepotências dos grandes.


10. As imprecações remetem as “vinganças” para Deus! Por isso, o salmista identifica a sua causa com a de Deus (79,12). É a lei da bipolarização semita: mundo em duas partes (justos e ímpios: bênção-maldições). O justo está do lado de Deus (=justiça). Combate os que estão “contra Deus”. O rei tinha a missão de Deus (101,5-8).


11. O salmista também pretende a conversão do pecador e a glória de Deus: é um missionário (5,9.11; 44,23-24; 74,22-23).


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PARA REFLECTIR
1 - Que forças apostam, hoje, na destruição dos valores do Evangelho?
2 - As imprecações dos Salmos – e de outros livros da Bíblia – manifestam a imensa gravidade do pecado ou a maldade do pecador?
3 - Que significa ler os Salmos imprecatórios (e os outros) com inteligência cristã?
4 - Que relação tem estes Salmos com a oração de todos os sofredores e perseguidos?