SALOMÃO, O REI SÁBIO

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Artigo publicado na revista Bíblica de 2002, nº 281, Julho–Agosto, p.5-15

 

Acerca de Salomão, grande parte dos cristãos conhece apenas a parte romanesca deste personagem: que teve 700 ou 1000 mulheres, teve também um romance com a rainha de Sabá e manifestou a sua grande sabedoria, propondo a duas mulheres, que disputavam o mesmo filho, que o cortassem ao meio, ficando cada uma delas ficasse com uma parte do menino. Ora, para além dos aspectos superficiais, vamos tentar encontrar outros aspectos bem mais importantes deste grande personagem da Bíblia.

 

 

1. Salomão, rei de Israel


Não podemos esquecer que Salomão (que significa “pacífico”) é, antes de mais, um dos grandes reis de Israel e, por isso, deve ser visto no contexto social e religioso dos reis. Quando nasceu «o Senhor amou-o e ordenou ao profeta Natan que lhe desse o sobrenome de Jedidias, que significa “amado do Senhor”» (2 Sm 12,24-25).

 

Salomão reinou de 970 a 931 a. C. e era filho da formosa Betsabé, de quem David se tinha enamorado. Neste sentido, Salomão é “filho do pecado”, pois David mandou matar Urias, esposo de Betsabé, colocando-o na frente de batalha (2 Sm 11). Sobre a temática dos reis, os textos da Bíblia são variados e pouco homogéneos. Sobre Salomão, falam textos de vários géneros literários e de várias escolas: há textos históricos da escola Deuteronomista (Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis); e da escola do Cronista (1 e 2 Crónicas, Esdras e Neemias); sobre Salomão, falam ainda os livros sapienciais, como os Provérbios, Eclesiastes, ou Qohélet, e Sabedoria, para além de várias alusões, nos Salmos. De Salomão falam também alguns livros do Novo Testamento: Mateus, Lucas, João e Actos. O nome de Salomão aparece ao longo da Bíblia umas 300 vezes, o que diz bem da importância deste personagem.


Foi dura a conquista do poder real por Salomão: como tinha um irmão mais velho – Adonias – este reivindicou o poder, ignorando o testamento de David, que confiava a sucessão a Salomão, segundo filho de Betsabé (1 Rs 1,5-53).


O belo texto da sagração de Salomão pode mostrar-nos como se fazia, então, uma unção real:


“Saíram, pois, o sacerdote Sadoc, o profeta Natan, Benaías, filho de Joiadá, os cretenses e os peleteus; montaram Salomão na mula do rei David e conduziram-no a Guion. O sacerdote Sadoc tomou do santuário o chifre do óleo e ungiu Salomão; tocaram a trombeta; todo o povo exclamou: ‘Viva o rei Salomão!’ Todo o povo subia após ele; o povo tocava flauta e exultava de efusiva alegria; a terra vibrava com as suas aclamações (1 Rs 1,38-40; ver 1,33-35; 1 Cr 29,21-25).


Esta sagração consistia, pois, no seguinte cerimonial: unção com óleo feita por um sacerdote ou profeta (Samuel ungiu Saul e David); aclamação do novo rei; procissão para o palácio real, onde se sentava sobre o trono e era coroado; recebia, então, as primeiras homenagens; era ainda feito um documento comprovativo da legitimidade do rei, “o testemunho”, que deveria ser guardado nos arquivos reais ou no templo; por vezes, a rainha-mãe sentava-se num trono ao lado do filho (1 Rs 2,19).

 

2. O sucessor de David


Depois da primeira tentativa da instituição real, com o rei Saul, David aparece como o verdadeiro rei, modelo de reis, que assume a realeza com todas as suas obrigações, fundando um Estado “moderno”, com todos os seus requisitos. Salomão não poderá ser compreendido sem esta relação com seu pai, o grande rei David, que, segundo a Bíblia, é o verdadeiro fundador do reino de Israel: uniu as tribos do Norte e do Sul, organizou o exército, conquistou territórios, fundou uma capital – Jerusalém – onde centralizou a autoridade do Estado; no seu palácio real começaram a organizar-se as primeiras tentativas de recolha de tradições da História de Israel. David, antes de morrer, entregara, “de mão beijada”, ao filho Salomão um reino a duras penas conquistado. Salomão só teve o trabalho de receber a herança que seu pai David conquistou em contínuas campanhas militares.


O problema mais difícil que Salomão teve que resolver foi o da unidade do Reino: o individualismo tribal e mesmo regional, sobretudo do Norte, prevalecia ainda sobre a centralização levada a cabo por David e por ele próprio. Para uma melhor organização do território, dividiu-o em doze distritos e colocou à frente de cada um deles um prefeito, ou governador, da sua confiança pessoal, para manter a coesão entre todas as tribos e para cobrar os impostos (1 Rs 4,7-20). Podemos, pois, dizer que é Salomão quem consolida a unidade do território conquistado por David; mas esta unidade foi feita a ferro e fogo, o que lhe criou uma multidão de inimigos. A este descontentamento geral não é alheio o facto do aumento dos impostos, para construir o templo e levar a cabo outras grandes e obras civis e militares, sobretudo o seu luxuoso palácio (1 Rs 7,1-12). Estas obras, feitas à custa do povo humilde, alimentavam a vaidade e orgulho de Salomão e pretendiam igualmente impor a sua imagem a nível internacional. A propósito da construção do templo, Salomão mandou organizar grupos de homens sujeitos à corveia, ou trabalho forçado, para os trabalhos da pedra e da madeira (1 Rs 5,27-32).


Salomão não foi, pois, um rei conquistador, porque recebeu um reino já organizado, sem ter que fazer qualquer campanha militar vitoriosa. Além disso, o aumento dos impostos foi até bastante prejudicial a Israel, porque levou a luxos excessivos e despoletou uma onda de descontentamento contra o poder real, sobretudo por parte das tribos do Norte. Precisamente esse facto irá dar azo à divisão do Reino entre Norte e Sul. Daí em diante, as dez tribos do Norte terão como rei Jeroboão (1 Rs 12-13), ficando Roboão, filho de Salomão, como rei do Sul (1 Rs 14,21-31).

 

Nestes aspectos negativos, Roboão, sucessor de Salomão, foi um digno imitador de seu pai, o que produziu o efeito que já se esperava: a divisão das tribos entre o Norte e o Sul. O seguinte texto exprime muito bem este acontecimento dramático da História de Israel:

 

Roboão foi a Siquém, porque todo o Israel se reunira em Siquém para o proclamar rei. Ora, quando Jeroboão, filho de Nabat, teve conhecimento disso encontrava-se ainda no Egipto, pois tinha fugido da presença do rei Salomão e residia no Egipto. Mandaram, pois, chamá-lo; Jeroboão veio com toda a assembleia de Israel para falarem com Roboão, dizendo: «Teu pai tornou pesado o nosso jugo; tu, agora, alivia-nos da pesada escravidão de teu pai, do pesado jugo que ele nos impôs, e nós te serviremos!» Ele respondeu-lhes: «Ide-vos embora; dentro de três dias voltareis à minha presença.» E o povo foi-se embora. Então o rei consultou os anciãos que sempre tinham sido os conselheiros de Salomão, seu pai, enquanto viveu, dizendo: «Que me aconselhais que responda a este povo?» Eles responderam: «Se hoje te fizeres servo deles, se fores condescendente, se lhes falares com palavras agradáveis, eles serão teus servidores por todo o sempre.» O rei, porém, rejeitando o conselho que lhe tinham dado os anciãos, foi aconselhar-se junto dos jovens, seus companheiros de infância, e que estavam então ao seu serviço. E disse-lhes: «A este povo que me disse: ‘Alivia o jugo que teu pai nos impôs’, que me aconselhais vós que responda?» Os jovens, seus companheiros de infância, responderam-lhe, dizendo: «A esse povo que te falou, dizendo: ‘O teu pai tornou pesado o nosso jugo; alivia-nos dele’, responderás assim: ‘O meu dedo mindinho é mais grosso do que os rins do meu pai. Doravante, já que meu pai vos carregou com um jugo pesado, eu vou torná-lo ainda mais pesado; meu pai castigou-vos com açoites; pois eu vos castigarei com azorragues!’».

Jeroboão e todo o povo vieram ter com Roboão ao terceiro dia, conforme o rei tinha dito: «Vinde ter comigo ao terceiro dia.» O rei respondeu asperamente ao povo, desprezando o conselho que os anciãos lhe tinham dado, e falou-lhes conforme o aconselharam os jovens dizendo: «Meu pai impôs-vos um jugo muito pesado? Pois eu vos aumentarei ainda o peso! Meu pai castigou-vos com açoites? Pois eu vos castigarei com azorragues!» O rei não ouviu o povo, pois foi este o meio usado indirectamente pelo Senhor para cumprir a sua palavra, que Ele dissera a Jeroboão, filho de Nabat, por meio de Aías de Silo.

Todo o Israel viu então que o rei não queria ouvi-los, e replicaram assim ao rei: «Que temos nós a ver com David? Nós não temos herança com o filho de Jessé! Vai para as tuas tendas, Israel! A partir de agora, cuida da tua casa, David!» E Israel foi para as suas tendas (1 Rs 12,1-16).

Podemos, pois, dizer que o reinado de Salomão não teve pleno sucesso, pelo menos a nível da política interna e da coesão nacional.

 

3. Salomão, o diplomata


Quanto à política externa, na sua relação com os reis vizinhos, tudo indica que Salomão teve um enorme sucesso: perante países muito mais poderosos, como era, por exemplo, o Egipto, o grande império do Sul, Salomão teve o melhor relacionamento possível, na medida em que empreendeu uma política de cooperação, tendo mesmo casado com a filho do faraó, o que, já na altura, era um meio de estreitamento de laços políticos (1 Rs 3,1).

 

Quanto a outros povos vizinhos, fez-se respeitar, mantendo em permanente alerta um pequeno mas bem organizado exército, com armazéns de víveres e reservas de cavalos e de carros de guerra, segundo o modelo dos filisteus. Estes carros eram fabricados no Egipto e os cavalos eram importados da Cilícia (Ásia Menor):

 

“Salomão reuniu carros e cavaleiros: tinha mil e quatrocentos carros e doze mil cavaleiros, que levou para as cidades onde tinha cavalaria, e para junto de si, em Jerusalém. Fez com que em Jerusalém a prata fosse tão abundante como as pedras, e os cedros tão numerosos como os sicómoros da planície. Os cavalos de Salomão eram provenientes do Egipto e de Qué; os mercadores do rei compravam-nos em Qué. Um carro trazido do Egipto ficava-lhe por seiscentos siclos de prata, e um cavalo, por cento e cinquenta siclos; e assim era também para todos os reis hititas e dos arameus, que os adquiriam por intermédio dos seus mercadores” (1 Rs 10,26-29).

 

Temos aqui certamente números propositadamente exagerados, mas que indicam a relativa importância que tinha o reino de Salomão no contexto internacional do seu tempo. Havia inclusive cidades fortificadas que defendiam o acesso às grandes vias de comunicação, como as cidades de Haçor, Guézer, Meguido, Tamar e outras. Eram “as cidades dos carros” de Salomão. São conhecidas também as “Cavalariças de Salomão”, em Meguido (1 Rs 5,6-8).

 

4. A administração e comércio de Salomão


Mediante a organização do pagamento dos impostos e do comércio com os povos vizinhos, Salomão conseguiu criar uma economia relativamente próspera, pois um país, para se fazer respeitar, não depende apenas de um exército bem organizado, mas sobretudo de uma economia forte. A Bíblia diz que Salomão se aliou ao rei Hiram, da vizinha cidade-estado de Tiro, a fim de criar uma frota internacional de comércio, sediada no Mar Vermelho. Aliás, os fenícios, que eram peritos na arte de navegar e de comerciar (1 Rs 9,26-28; 10,11.22), trocavam mercadorias, sobretudo o ouro, pelo ferro das “minas de Salomão”, de Ecion-Guéber, perto da actual Elat. Salomão também fazia comércio com as caravanas que circulavam na região (1 Rs 10,15), com o rei de Tiro (1 Rs 5,15-26; 9,27; 10,11-14) e com o Sul do actual Iémen ou reino de Sabá (1 Rs 10,1-13). Aliás, o reino ficava situado precisamente entre o Norte e o Sul – o Egipto – numa das rotas mais importantes do comércio de então, por onde passavam as caravanas.


O comércio desenvolvia o artesanato local e trazia riqueza para o país. Poderemos dizer que David conquistou territórios e unificou as tribos, deixando a Salomão o encargo de desenvolver o país. A construção do templo de Jerusalém foi um dos motivos que levou Salomão a estabelecer relações de comércio com o vizinho rei de Tiro (1 Rs 5,15-32).

 

5. Salomão, construtor do Templo


Antes de morrer, David deixou em testamento ao seu sucessor a grande tarefa da construção do templo, que ele próprio não teve tempo de edificar (1 Rs 8,18-19). Naquele tempo, era costume edificar um palácio para o rei e outro para o deus da cidade (2 Sm 7,13; 1 Rs 5,19). David não fez mais do que cumprir um costume. Aliás, o termo utilizado para palácio e templo (‘eykal) é o mesmo, pois o que chamamos “templo” era, nada menos, o palácio do deus da cidade. David ordenara que o seu sucessor construísse o Templo de Jerusalém, em honra do verdadeiro e único Deus, o qual seria, ao mesmo tempo, um laço de unidade entre todas as tribos (2 Sm 7,12-14; 1 Rs 5,19).


Segundo a Bíblia, este templo demorou 7 anos a construir (1 Rs 6,37-38), e foi com a colaboração do rei de Tiro que tal obra se pôde concretizar. A descrição pormenorizada do templo de Salomão encontra-se em 1 Rs 6,1-38 e 2 Cr 3,1-17. As suas medidas são exageradas, a fim de realçar a importância que esta obra tinha para Israel e para o olhar atónito dos povos estrangeiros que a visitavam. Não podemos esquecer que tais medidas são também simbólicas. Além disso, parece que não foi Salomão quem edificou este templo, que é visto como templo ideal e com as medidas ideais; os autores destes textos teriam colocado no tempo de Salomão um templo bastante posterior a este rei. O de Salomão deveria ser bastante mais simples e modesto.


A este propósito, pode dizer-se que o esquema geral do templo de Salomão, partindo de dentro para fora, é o seguinte:


Debir, o recinto sagrado mais interior, chama-se também Santo dos Santos. Era o lugar próprio de Deus, a “Sala reservada” a Deus. Esta peça tinha uns 10 metros de comprimento, por 10 de largura e 10 de altura (1 Rs 6,20; 2 Cr 3,8-9), o que perfazia um cubo, medida considerada perfeita, ideal, naquele tempo. Além disso, e comparando este espaço com o de outros templos da mesma região, poderemos pensar que era um espaço completamente escuro, sem qualquer entrada de luz directa. O Debir devia estar construído sobre a rocha que ainda hoje se encontra dentro da mesquita de Omar, no monte do Templo, em Jerusalém. Dentro do Debir, encontrava-se a Arca da aliança, que aí foi solenemente introduzida por Salomão (1 Rs 8,1-9); sobre a Arca encontravam-se as imagens dos dois querubins, que simbolizavam dois pagens ou guardas de honra de Deus, rei do céu e da terra (Ex 25,18; Sl 18,10-11; Is 6,2; Ez 1,5-10). Neste caso, o conjunto da Arca e dos querubins tinham também a função de estrado dos pés de Deus sobre a Terra, Ele que tem o seu trono no mais alto dos céus (2 Rs 19,15; Is 37,16).


Hêkal, corpo central do Templo, recebia alguma luz através de janelas e constituía o lugar onde os sacerdotes preparavam e ofereciam os sacrifícios; era a sala do culto (1 Rs 6,4-8). Por isso, se chamou Santo, em oposição ao Santo dos Santos, ou Debir, e tinha uns 20m de comprimento. Aí se encontrava o altar do incenso, ou de ouro (1 Rs 6,20-21), a mesa ou altar dos 12 pães da oferenda ─ símbolo das 12 tribos ─ que eram apresentados todos os sábados ao Senhor (Lv 24,5-9; 1 Rs 7,48); os dez candelabros (1 Rs 7,49; 2 Cr 4,7), que foram os antecessores do candelabro de 7 braços (Ex 25,31-40; Nm 8,2). Entre o Debir e o Hêkal havia uma porta (1 Rs 6,31), ou o chamado “véu do Templo”, pela qual apenas o Sumo Sacerdote podia entrar e apenas uma vez por ano, por ocasião da festa da Expiação, para aspergir a parte superior da Arca, o Propiciatório (hakkapporet: Lv 16,1-14).


Ulam era o vestíbulo ou Pórtico do Hêkal, e era a parte mais exterior do Templo. Tinha uns 5 metros de comprimento. Diante dele havia duas colunas (Jaquin e Booz), com um significado algo misterioso (1 Rs 7,13-22). Poderão significar a perpetuidade do templo e do povo. No Pórtico de Salomão (Jo 10,23; Act 3,11; 5,12) organizava-se a assembleia que ia participar nos actos sagrados, fazendo aí as respectivas purificações.


Ao redor deste conjunto arquitectónico, havia um Pátio exterior onde se encontrava um enorme depósito de bronze chamado “Mar”, que servia certamente para as purificações antes da oração e dos sacrifícios (1 Rs 7,23-26). Havia também 10 depósitos mais pequenos colocados em bases móveis, que tinham a mesma função do “Mar” (1 Rs 7,38-39).


Resumindo, poderíamos dizer que o Santo dos Santos é o Santuário, o lugar de Deus; o Hêkal é o templo, lugar dos sacerdotes, tendo um pórtico de entrada, o Ulam (Ez 40,48-41,4). É fácil de notar a intenção do narrador: ele pretende exaltar a grandiosidade da construção, sobretudo através da esmerada qualidade dos elementos com que o texto é construído. Segundo estas medidas, o templo de Salomão teria uns 35 metros de comprimento, uns 10 de largura e 13,50 de altura. Não podemos esquecer que o Templo não era propriamente o espaço para as pessoas, como acontece com as nossas igrejas, mas para a Arca do Senhor (Ex 26; Ez 40-42).

 

 

OS TRÊS TEMPLOS DE JERUSALÉM

 

1. O Templo de Salomão foi construído por volta de 950 a.C. e destruído por Nabucodonosor em 588, quando tomou Jerusalém. Durou, portanto, uns 360 anos.


2. O Templo de Zorobabel, mais pequeno e humilde que o de Salomão, foi construído nas ruínas do anterior, depois da volta do Exílio da Babilónia, terminando em 515.


3. Pouco antes do nascimento de Cristo, Herodes, o Grande, para agradar aos judeus, iniciou a construção de um templo ainda mais majestoso que o de Salomão, no ano 20 a.C.. Jesus anunciou a sua ruína. Foi destruído pelos romanos no ano 70 d.C., quatro anos depois de terminado. Este nunca mais foi reconstruído e o que resta é um pouco do muro de suporte da colina onde estava o Templo, o famoso Muro das Lamentações, tão caro a todos os judeus.

 

6. A sabedoria de Salomão e a rainha de Sabá


Uma das características da pessoa de Salomão é certamente a sabedoria. Já acima referíamos os contactos de Salomão com o Egipto, país da sabedoria. Aí se organizaram as primeiras escolas, não apenas para aprender a ler e contar, mas sobretudo para aprender as sentenças dos sábios mais antigos, a fim de saber viver bem com Deus e com os homens. De facto, a sabedoria humana e a sabedoria divina são as duas espécies de sabedoria da Bíblia. Salomão pode ter sido o primeiro a fundar escolas em Israel, à maneira das que existiam no Egipto.


Sabedoria é, ao mesmo tempo, inteligência, arte, esperteza, de modo a agradar a Deus e aos homens. Por isso, a sabedoria era uma virtude essencial para o governo dos reis, a fim de julgar com justiça os casos mais difíceis do seu povo. Ela está, pois, na base da organização real. Será por isso que, tendo concluído a organização do reino fundado por David, Salomão irá receber de Deus a sabedoria, como se fosse ele o autêntico fundador da monarquia israelita. Será por isso que a sabedoria atravessa todos os textos referentes a Salomão, como seu fio condutor. Isto é de tal modo verdade que dele se afirma: “A sabedoria de Salomão excedia a de todos os filhos do Oriente e toda a sabedoria do Egipto” (1 Rs 5,10). Será por isso também que Salomão, como juiz supremo, irá pronunciar a famosa “sentença salomónica” da divisão do bebé em dois, para saber qual das duas mulheres era a mãe do menino (1 Rs 3,16-28).

 

 

Livros atribuídos a Salomão

A Salomão são atribuídos vários livros da Bíblia: Sabedoria, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e Provérbios. Além destes livros da Bíblia, alguns outros apócrifos são também atribuídos a Salomão: Odes de Salomão, que contém quarenta e duas Odes (do séc. II, d.C.); Salmos de Salomão, 18 Salmos atribuídos a Salomão, mas pouco anteriores a Cristo. São também atribuídos a Salomão os Sl 72 e 127. Não é possível que qualquer destes livros possa ter sido escrito por Salomão, pois são muito posteriores a este rei sábio.

 

Será por isso que a Salomão são atribuídos diferentes livros chamados sapienciais ou de sabedoria (Sabedoria, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e Provérbios), embora sejam muito posteriores a ele. Trata-se de uma maneira de falar, para dizer que foi ele o primeiro a iniciar esta corrente literária e religiosa em Israel. Além disso, os livros que falam da história de Salomão referem com certa insistência a sabedoria deste rei, o que prova certamente o mesmo facto. Poderemos dizer que todos os capítulos de 1 Reis 3-10 falam da sabedoria de Salomão e apresentam-no como o rei sábio por excelência. Por isso, Hiram, rei de Tiro, assim fala dele: “Bendito seja hoje o Senhor que deu a David um filho sábio para governar este povo tão numeroso” (1 Rs 5,21).


O leitor é convidado a ler estes maravilhosos textos, tentando beber neles também a sabedoria divina que o Senhor comunica realmente a todos os que lêem a sua palavra com fé. Quanto ao famoso tema da vinda da rainha de Sabá a Jerusalém “para escutar a sabedoria de Salomão” (Mt 12,42; Lc 11,31), este pertence ao género de textos que falam da vinda dos povos estrangeiros ao monte santo do Senhor e da conversão dos povos ao verdadeiro Deus.

 

É à rainha de Sabá que Salomão mostra toda a sabedoria:


«A rainha de Sabá, tendo ouvido falar da fama que Salomão alcançara para glória ao Senhor, veio pô-lo à prova por meio de enigmas. Chegou a Jerusalém com um séquito muito importante, com camelos carregados de aromas, enorme quantidade de ouro e pedras preciosas. Tendo-se apresentado a Salomão, falou-lhe de tudo quanto trazia na ideia. Salomão respondeu-lhe a tudo; nenhuma questão foi tão enredada que o rei lhe não desse solução.

A rainha de Sabá viu toda a sabedoria de Salomão bem como a casa que ele tinha construído; viu as provisões da sua mesa e o alojamento dos seus criados, as habitações e os uniformes dos seus oficiais, os copeiros do rei e os holocaustos que imolava no templo do Senhor, e ficou deslumbrada.

Disse então ao rei:

‘É realmente verdade o que tenho ouvido na minha terra acerca das tuas palavras e da tua sabedoria. Não quis acreditar nisso antes de vir aqui e ver com os meus próprios olhos; ora, o que me diziam não era sequer metade; tu ultrapassas em sabedoria e dignidade tudo quanto até mim tinha chegado. Felizes os teus homens, felizes os teus servos que estão sempre contigo e ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o Senhor, teu Deus, a quem aprouve colocar-te sobre o trono de Israel. É porque o Senhor ama Israel com amor eterno que Ele te constituiu rei para exercer o direito e a justiça’» (1 Rs 10,1-9).

 

 

Existiu a rainha de Sabá?


Os textos bíblicos falam da rainha de Sabá, sem nos dizerem o seu nome. Tudo indica que uma rainha do Sul, provavelmente do Iémen, território que ficava na rota do incenso e outros perfumes, veio a Jerusalém. No entanto, só um século depois de Salomão é que consta a existência de um reino com este nome. Uma outra dificuldade viria do facto da existência de uma rainha, pois apenas os homens tinham, geralmente, acesso à realeza. O importante nesta narração de 1 Reis 10 é o facto de existirem relações internacionais do reino de Salomão com outros reinos longínquos, assim como o facto de a sua sabedoria ser conhecida nesses reinos.
Sobre os povos sabeus ou de Sabá, sabe-se pouco no tempo de Salomão (ver Gn 10,28; Ez 27,21-22). Uma tradição judaica, transmitida por Rashi, falará mais tarde do casamento de Salomão com esta rainha dos sabeus; e uma lenda da Etiópia fará do seu rei Menelik I o fruto da união de Salomão com esta rainha. Será por isso que os antigos reis da Etiópia tinham o título de “Leão de Judá” e o seu emblema era a estrela com seis pontas, igual à estrela de David. O Alcorão também fala da rainha de Sabá, a partir de tradições populares judaicas, cristãs e outras.
Nos Evangelhos, esta rainha é referida em relação com a sabedoria de Salomão e é chamada “a rainha do Sul” (Mt 12,42; Lc 11,31-32).

7. Sombras sobre o reinado de Salomão


Salomão foi certamente um grande rei. No entanto, algumas sombras empalidecem a sua história: utilizou os trabalhos forçados para ter mão de obra suficiente e barata para as grandes construções (1 Rs 5,29-32; 12,4-16). Estas obras endividaram o reino, de tal modo que teve que ceder ao rei Hiram, de Tiro, uma parte costeira do território da Galileia (1 Rs 9,10-12). O seu desejo de fama e glória empobreceu e revoltou o povo. A sua visão era demasiado grandiosa para os recursos económicos de que podia dispor. Numa palavra, foi dominado pelo orgulho e pela vaidade.


A este mal foi associado um outro, não menor: o de casar com muitas mulheres estrangeiras, que trouxeram para Israel os seus deuses, com todas as sequelas religiosas conhecidas.

A Bíblia recrimina-o, não pelas mulheres, mas pelos deuses que tais mulheres trouxeram:

 

«O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras: a filha do Faraó e, além disso, moabitas, amonitas, edomitas, sidónias e hititas. Eram oriundas de povos de quem o senhor dissera aos filhos de Israel: ‘Não tomareis deles mulheres para vós nem eles se casarão com as vossas, porque certamente haviam de perverter os vossos corações, arrastando-os para os seus deuses’. Foi precisamente a estes povos que Salomão se ligou, por causa dos seus amores. Teve setecentas esposas de sangue nobre e trezentas concubinas. Foram as suas mulheres que lhe perverteram o coração.

Na idade senil de Salomão, as suas mulheres desviaram-lhe o coração para outros deuses; e assim o seu coração já não era inteiramente do Senhor, seu Deus, contrariamente ao que sucedeu com David, seu pai. Foi atrás de Astarté, deusa dos sidónios, e de Milcom, abominação dos amonitas. Salomão fez o mal aos olhos do Senhor e não seguiu inteiramente o Senhor, como David, seu pai. Por essa altura, ergueu Salomão um lugar alto a Camós, deus de Moab, e a Moloc, ídolo dos amonitas, sobre o monte que fica mesmo em frente de Jerusalém. E fez o mesmo por todas as suas mulheres estrangeiras, que queimavam incenso e sacrificavam aos seus deuses. O senhor irritou-se contra Salomão, pois o seu coração se afastara do Senhor, Deus de Israel, que se lhe tinha revelado por duas vezes, e lhe ordenou sobre estas coisas para não seguir os deuses estrangeiros. Ele, porém, não cumpriu o que o Senhor lhe prescrevera» (1 Rs 11,1-10).


Não podemos interpretar à letra tal quantidade de mulheres. Isto é apenas um número simbólico de grandeza e riqueza, no sentido em que a mulher era, de algum modo, comprada pelo marido. Ora, dizer que alguém tinha determinado número de mulheres equivalia a um certo grau de riqueza: quanto maior era o número das mulheres, maior era a riqueza do marido, que as tinha “comprado”. Além disso, há aqui um evidente exagero, próprio dos semitas, para recriminar o mal que Salomão praticou, abandonando o Senhor. 700+300 = 1000 mulheres, número simbólico de grande quantidade, número indeterminado. Nada mais do que isso. O pecado de Salomão não é, pois, um pecado de tipo sexual, mas de luxo desnecessário, enquanto o povo vivia na miséria; é sobretudo um pecado de idolatria, de abandono de Deus, o que é muito mais grave ainda (2 Rs 23,13).


Numa palavra, Salomão aparece como modelo de rei sábio, inteligente e piedoso, o construtor do Templo; e esta é a herança que recebeu de David; mas torna-se também o anti-rei, o rei idólatra, que será a característica de alguns dos seus sucessores no trono. Deste modo, a personagem de Salomão é claramente ambivalente. Ele personifica o mal e o bem do seu pai David e dos outros reis, seus sucessores.

 

8. Salomão, profecia de Jesus Cristo


Dentre todos os personagens da Bíblia, Salomão distingue-se sobretudo pela sabedoria divina que o Senhor derramou sobre ele. Mas ele não era mais que uma imperfeita profecia de Jesus Cristo, sabedoria de Deus incarnada no meio da humanidade. É isso mesmo que Jesus afirma, quando se compara a Salomão:

 

«No dia do juízo, a rainha do Sul há-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está alguém quem é maior do que Salomão!» (Mt 12,42).


Ao olharmos para este personagem, vemos, por um lado, muitos males e pecados actuais, traduzidos sobretudo na “idolatria” de hoje: o luxo de alguns e a miséria de quase todos os habitantes do planeta; o materialismo, o agnosticismo e o ateísmo modernos; mas vemos também, no seu lado de rei sábio e piedoso, o modo de compensar tais males e pecados. O Segundo Livro das Crónicas tentou, depois do Primeiro dos Reis, limpar a figura de Salomão dos seus traços negativos (2 Cr 1-9). Mas penso que devemos gostar desta imagem de Salomão, tal como ela nos é transmitida pelo Primeiro Livro dos Reis: uma imagem verdadeira, realista, a imagem de um rei santo e pecador, ao mesmo tempo, porque essa imagem de ontem traduz a situação de todos nós diante de Deus, na nossa história de hoje. Se assim interpretarmos os textos bíblicos sobre Salomão, estaremos certamente a trilhar o caminho certo, o caminho da sabedoria, como seguidores de Jesus Cristo, Sabedoria Divina incarnada.

 


OUTROS BELOS TEXTOS REFERENTES A SALOMÃO

 

Consagração do Templo

12Disse então Salomão:

«O SENHOR escolheu habitar em nuvem escura! 13Por isso é que eu te edifiquei um palácio, um lugar onde habitarás para sempre.» 14Depois, o rei voltou-se para a assembleia de Israel e abençoou toda a assembleia de Israel, que se mantinha de pé. 15E disse:

«Bendito seja o SENHOR Deus de Israel que por sua boca falou a meu pai David, e por sua mão acaba e cumprir a promessa que lhe fez quando disse: 16*‘Desde o dia em que fiz sair Israel, meu povo, do Egipto, não escolhi cidade alguma de entre as tribos de Israel onde fosse edificada uma casa para que ali estivesse o meu nome; mas escolhi David para reinar sobre o meu povo de Israel.’ 17David, meu pai, teve o desejo de edificar um templo ao nome do SENHOR, Deus de Israel. 18O SENHOR, porém, disse a David, meu pai: ‘Tu tiveste o desejo de construir um templo ao meu nome; e fizeste bem. 19Porém, não serás tu a edificar esse templo, mas um teu filho, nascido de ti, é que há-de construir um templo ao meu nome!’ 20O SENHOR cumpriu a palavra que dissera: eu sucedi a David, meu pai, e sentei-me no trono de Israel, como o SENHOR tinha dito; edifiquei este templo ao nome do SENHOR, Deus de Israel. 21*Nele destinei um lugar para a Arca onde se encontra a Aliança do SENHOR, Aliança que Ele concluiu com nossos pais quando os fez sair da terra do Egipto» (1 Rs 8,12-21).

Salomão pede a sabedoria

«Salomão respondeu: ‘Tu trataste o teu servo David, meu pai, com grande misericórdia, porque ele andou sempre na tua presença com lealdade, justiça e rectidão de coração para contigo; conservaste para com ele essa grande misericórdia, concedendo-lhe um filho que hoje está sentado no seu trono. Agora, SENHOR, meu Deus, és Tu também que fazes reinar o teu servo em lugar de David, meu pai; mas eu não passo de um jovem inexperiente que não sabe ainda como governar. O teu servo encontra-se agora no meio do teu povo escolhido, um povo tão numeroso que ninguém o pode contar nem enumerar, por causa da sua multidão. Terás, pois, de conceder ao teu servo um coração cheio de entendimento para governar o teu povo, para discernir entre o bem e o mal. De outro modo, quem seria capaz de julgar o teu povo, um povo tão importante?» Esta oração de Salomão agradou ao Senhor (1 Rs 3,6-10).

Sabedoria de Salomão

«Deus concedeu a Salomão sabedoria e inteligência extraordinárias, bem como uma visão de espírito tão vasta como as areias que há nas praias do mar. A sabedoria de Salomão excedia a de todos os filhos do Oriente e toda a sabedoria do Egipto. Foi o mais sábio de todos os homens; mais sábio do que Etan, o ezraíta, e do que Heman; do que Calcol e Darda, filhos de Maol; o seu nome era conhecido por todos os povos em redor. Proferiu três mil provérbios, e seus hinos são em número de mil e cinco. Dissertou sobre as árvores: sobre o cedro do Líbano, bem como sobre o hissopo que brota dos muros; sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. Para ouvir a sua sabedoria vieram pessoas de todos os povos, da parte de todos os reis da terra, que alguma vez tinham ouvido falar dela» (1 Rs 5,9-14).

Oração de Salomão depois da consagração do Templo

(1 Rs 8,22-61) (2 Cr 6,12-42; Sb 9,1-18)

22*Depois, Salomão colocou-se diante do altar do SENHOR, perante toda a assembleia de Israel; levantou as mãos para o céu 23*e disse:

«SENHOR, Deus de Israel,
não há Deus semelhante a ti,
nem no mais alto dos céus
nem cá em baixo, na terra,
para guardar a misericordiosa
Aliança para com os servos
que andam na tua presença
de todo o coração.


24Tu cumpriste sempre as tuas promessas
para com o teu servo David, meu pai.
Tudo o que disseste com a tua boca,
tudo isso cumpriste com a tua mão,
como hoje se vê.


25Agora, SENHOR, Deus de Israel,
realiza as promessas que fizeste
ao teu servo David, meu pai,
quando lhe disseste:


‘Nunca mais deixará de sentar-se
diante de mim, no trono de Israel,
alguém da tua estirpe,
desde que os teus filhos
tenham o cuidado de velar pela sua conduta,
caminhando na minha presença,
como tu mesmo o fizeste sempre.’


26Que agora se cumpra,
ó Deus de Israel,
a promessa que fizeste ao teu servo David, meu pai.
27Será que Deus poderia mesmo
habitar sobre a terra?
Pois se nem os céus
nem os céus dos céus
te conseguem conter!
Quanto menos este templo que eu edifiquei?
28Mesmo assim,
atende, SENHOR, meu Deus,
a oração e as súplicas do teu servo.
Escuta o grito e a prece
que o teu servo hoje te dirige.

29Estejam os teus olhos abertos
dia e noite sobre este templo,
sobre este lugar do qual disseste:
‘Aqui estará o meu nome.’

Ouve a oração que neste lugar
te faz o teu servo.
30Escuta a súplica do teu servo
e a do teu povo, Israel,
quando aqui orarem.
Ouve-os do alto da tua mansão, no céu;
ouve-os e perdoa!
31*Se alguém pecar contra o seu próximo
e, ao ser-lhe imposto um juramento de maldição,
vier fazê-lo diante do teu altar,
neste templo,
32Tu o ouvirás lá do alto dos céus,
exercerás a justiça
entre os teus servos,
condenando o culpado,
fazendo cair a sua culpa
sobre a sua cabeça,
absolvendo o justo
e compensando-o
segundo a justiça.


33Quando Israel, teu povo, for derrotado
pelos seus inimigos
por ter pecado contra ti,
se ele voltar para ti
glorificando o teu nome,
se rezar e suplicar neste templo,
34escuta-o lá do céu,
perdoa o pecado de Israel, teu povo,
e recondu-lo à terra que deste a seus pais.


35Quando o céu se fechar
e não houver mais chuva
porque o povo pecou contra ti,
se ele se voltar para este lugar em oração,
der glória ao teu nome
e se arrepender do seu pecado
por causa da aflição que lhe decretaste,
36ouve-o lá do céu,
perdoa o pecado dos teus servos
e de Israel, teu povo;
ensina-lhes o bom caminho que devem seguir,
e manda chuva sobre a terra

que deste em herança ao teu povo.


37Quando cair sobre a terra a fome,
a peste, a ferrugem,
o tumor maligno e os gafanhotos;
quando o inimigo sitiar o povo nas cidades,
quando houver seja que flagelo for ou epidemia,
38se um homem ou o teu povo,
seja qual for o motivo da sua oração
ou da sua súplica,
tomar consciência do flagelo que atinge a sua vida
e estender as mãos para este templo,
39Tu escuta-os lá do céu,
o lugar onde habitas,
perdoa-lhes e trata-os segundo a sua atitude.
Tu conheces o seu íntimo;
só Tu, de facto, conheces o coração de todos os homens.
40Assim, os filhos de Israel te hão-de temer
enquanto viverem sobre a terra
que deste a nossos pais.
41Até o estrangeiro,
que não pertence ao teu povo de Israel,
se ele vier de um país longínquo,
por causa do teu nome,
42se ouvir falar por toda a parte
da grandeza do teu nome,
da força da tua mão
e do poder do teu braço,
se esse homem vier rezar a este templo,
43Tu ouve-o lá do céu,
a casa onde habitas,
atende a tudo quanto te pedir esse estrangeiro.


Assim, todos os povos da terra
hão-de conhecer o teu nome,
como Israel, o teu povo;
hão-de temer-te e ficarão a saber
que o teu nome é invocado
neste templo que eu edifiquei.


44*Quando o teu povo partir para a guerra
contra os seus inimigos
pelo caminho que lhe tiveres indicado,
se te rezarem voltados para a cidade que escolheste,
para o templo que ergui ao teu nome,
45ouve do alto dos céus
as suas orações e súplicas,
e faz-lhes justiça.


46Quando os filhos de Israel tiverem pecado contra ti
- porque não há ninguém sem pecado -
e estiveres irritado contra eles
até os entregares nas mãos
dos seus inimigos
a ponto de serem levados prisioneiros
pelos seus vencedores para um país inimigo, próximo ou longínquo,
47se na terra do seu exílio, entrando em si,
se arrependerem dos seus pecados
e, cativos, te suplicarem desta maneira:

‘Pecámos, cometemos a iniquidade, procedemos mal’,
48se eles se voltarem para ti
de todo o coração e de toda a sua alma,
na terra dos seus inimigos
para onde foram levados prisioneiros,
e orarem a ti de rosto voltado
para a terra que deste a seus pais,
para esta cidade que escolheste,
para este templo que eu ergui ao teu nome,
49ouve do alto dos céus,
do alto da tua mansão,
as suas orações e súplicas;
faz-lhes justiça!


50Perdoa ao teu povo todos os pecados
e as ofensas que cometeram contra ti.
Infunde misericórdia nos que os retêm cativos
a fim de que tenham compaixão deles.
51*É que Israel é o teu povo e a tua herança
que fizeste sair do Egipto, de uma fornalha de fundir ferro!
52Que os teus olhos se abram
às súplicas dos teus servos e do povo de Israel,
para os ouvires
quando te invocarem!


53*Foste Tu, ó Senhor DEUS, que os escolheste
de entre todos os povos da terra
como tua herança,
como declaraste pela boca
do teu servo Moisés
quando fizeste sair
os nossos pais do Egipto!»

Bênção de Salomão (1 Rs 8,54-61)

 

54Logo que Salomão acabou de dirigir ao SENHOR esta oração de súplica,

levantou-se diante do altar do SENHOR, onde estivera prostrado de joelhos e de mãos erguidas ao céu.

55De pé, abençoou toda a assembleia de Israel, dizendo em voz alta:

56«Bendito seja o SENHOR
que deu um lugar de repouso
a Israel, seu povo, tal como tinha dito;
nenhuma de todas as boas palavras
que tinha dito pela boca de Moisés, seu servo, ficou sem efeito.


57Que o SENHOR, nosso Deus, esteja connosco
como esteve com os nossos pais,
que Ele não nos deixe
nem nos abandone;
58que incline para Ele os nossos corações,
a fim de que andemos sempre pelos seus caminhos,
observando os seus mandamentos,
as leis e os costumes
que prescrevera a nossos pais.


59Que estas súplicas que eu acabo de dirigir ao SENHOR
estejam dia e noite em sua presença,
de modo que dia a dia Ele faça justiça ao seu servo
e ao seu povo de Israel.
60Assim, todos os povos da terra hão-de reconhecer
que o SENHOR é que é Deus,
e que não há outro Deus além de Ele.


61Que o vosso coração esteja integralmente com o SENHOR, nosso Deus,
a fim de viverdes segundo as suas leis
e guardardes os seus mandamentos como o fazeis hoje.» (1 Rs 8,22-61)