|
Natal residual?
votos
de
boas
entradas
neste novo
ano
litúrgico
com
um
advento
que conduza
ao
coração
do
mistério pascal
passando
pelo
calor
humano
e divino
do
natal
MORGADO
sagrada família, a vaca e o
burro, uma ovelha, um pastor, três reis magos. e este dizer:
“presépio realizado a partir de resíduos sólidos deste centro
comercial.”
1ï
junto do estádio-catedral da luz, um presépio faz de cartaz
num centro comercial, neste natal. ao lado pode ler-se: “realizado a
partir de resíduos sólidos deste centro."
quase como certos camionistas, ufanos de exibirem um par de
chifres na frente do seu meio-companheiro de transporte, com a
legenda: “estes são meus.”
com tanta criança deitada ao lixo, tratada como lixo, bem
podia Jesus, de madrugada, encontrar nas lixeiras da cidade
suficientes resíduos sólidos humanos
para
encarnar, nascer de novo e, na falta de acordo quanto à combustão,
reanimar adultos e crianças transformando-os pela sua encarnação.
mas estes são dele, do centro.
para novos
cultos, novos deuses, ainda que sejam de resíduos tóxicos, ditos
sólidos. aos crentes de um estádio-catedral basta um natal residual.
2ï
nasceu
Jesus, o rei do desperdício sólido – diz o presépio – chamariz.
roubado à festa, onde era fundamental, é exibido como desperdício
recuperado neste centro, no natal.
destinatários: compradores crentes em luzinhas da época, ouvindo
noutro campanário sininhos da infância chamando para a missa-do-galo.
mas quentes e quedos, à lareira.
3ï
compre agora, deite os desperdícios fora e faremos com eles o
presépio no próximo natal – diz o tal –
para que venha cá de novo, compre, gaste, seja feliz, desperdice,
tape o nariz ao cheiro dos resíduos sólidos
e outro menino-deus encarne, sorridente, na solidez comercial dos
descartáveis imprescindíveis.
4ï
menino Jesus, Deus de Deus, Luz da Luz, Tu eras fonte, princípio,
causa, vida, novidade, o único necessário – tudo, menos bibelot de
colunáveis, pretexto de prendas e ceias, desperdício dos nossos
consumos.
hoje,
porque és o mesmo, só te cabe (só Tu podes) refazer o que
desfizemos, reanimar o que matámos, aproveitar o que nos sobra e
encarnar, marginalizado, na matéria enjeitada pela sociedade
consumida.
quer
dizer: afinal, continuas tão urgente e actual como antigamente, no
princípio do mundo, ou quando o mundo agonizante, há dois mil anos,
das suas trevas gritou “quero luz”, no teu único Natal.
e eu a
temer que, feito de lixo sólido, tivesses a mesma sorte das
lixeiras: todos as fazem e despejam nelas, ninguém as quer à sua
porta. mas Tu já estavas habituado às margens da cidade.
bem-vindo à nossa lixeira, embandeirada com plásticos esvoaçantes e
animada pelos voos rasantes das gaivotas competindo em acolher-te,
separar-te, aproveitar-te, deitar fora o que de ti não presta na
ética do negócio
ó
rei-menino dos desperdícios sólidos! (e desperdício?)
5ï
nunca senti que fosse um desperdício escrever-te, mesmo sabendo que
as mensagens no papel hão-de, mais cedo ou mais tarde, parar numa
lixeira.
mas hoje anseio, mesmo, por esse dia em que a mensagem se torne
matéria prima doutro presépio noutra superfície comercial doutra
cidade para outro Natal.
então, feliz Natal –
não
o tal
do
centro comercial.
Lopes
Morgado
2003
Rua
S. Francisco de Assis, s/n
Apartado
208
2496-908
FÁTIMA
Tel.
249 530210 / Fax 249 530214
  
Av.
Cons. Barjona de Freitas, 12
1500-204
LISBOA
Tel.
21 7742445 / Fax 21 7782371
e-mail:
lopes.morgado@gmail.com



|