|


Fundador da Difusora Bíblica
e da Revista BÍBLICA
| |
Lopes Morgado
Em 28 de Agosto de 2003, numa Eucaristia da XXVI Semana
Bíblica Nacional, abriu oficialmente a comemoração do
Centenário de Nascimento do
frei Inácio de Vegas com a evocação
partilhada da sua figura e a entrega de uma pagela com a
síntese da sua biografia e uma oração para rezar antes
de ler a Bíblia; e encerrou no XXV Encontro Nacional dos
Grupos Bíblicos, realizado no dia 27 de Junho, com o
lançamento de um opúsculo com a sua fotobiografia
mais desenvolvida e uma recolha de alguns dos seus
ideais, recomendações, pensamentos e sonhos acerca da
Palavra de Deus e do Movimento Bíblico, extraídos de
cartas e entrevistas suas, bem como de muitos
testemunhos daqueles que o conheceram de perto.
Simultaneamente, desde Setembro-Outubro de 2003 até
Julho-Agosto de 2004, duas páginas em cada número
da revista BÍBLICA reproduzem textos, fotos e
testemunhos dele ou sobre ele. E o seu nome já foi dado,
em 2001, ao salão-cave do Centro Bíblico dos
Capuchinhos, em Fátima, após uma tentativa – frustrada
por ele e pelo então Ministro Geral da Ordem, frei
Roberto Carraro – de o atribuir a todo o Centro Bíblico
em 1993.
Além disso, na revista das Províncias Capuchinhas
Ibéricas, Estudios Franciscanos, editada
em Barcelona, Espanha, foi-lhe dedicado o artigo
“Movimento Nacional de Dinamização Bíblica”, de frei
Lopes Morgado, onde o frei Inácio surge como figura
central (nº 436, Janeiro-Agosto 2004, pp. 73-113). A
mesma dedicatória lhe é feita no livro de poemas de raiz
bíblica, em minha memória, de Lopes Morgado,
editado pela Difusora Bíblica em Abril de 2004, devido à
sua relação com «aquele amor» à Palavra de Deus «a que o
frei Inácio chamava “o 8° dom do Espírito Santo”.»
Neste contexto, realizaram-se já os trabalhos de
infra-estruturas para a implantação de um Jardim
Bíblico no terreno anexo ao referido Centro, para
ser inaugurado durante estas comemorações e as do
Cinquentenário da Fundação da
Difusora Bíblica e da revista Bíblica, que
vai decorrer entre as Semanas Bíblicas Nacionais de 2004
e 2007.
Para esta comemoração, além de uma medalha, sairá
a História do Movimento Bíblico e, sobretudo, uma
outra edição “ilustrada” da Bíblia, em formato de
altar, com texto a duas cores e vários cadernos de 8
páginas a quatro cores. Isto, porque, além do mais, este
cinquentenário coincide com os
40 anos da Bíblia Sagrada que a
Difusora Bíblica editou em Janeiro de 1965, praticamente
um ano antes do encerramento do Concílio Ecuménico
Vaticano II e da Constituição dogmática Dei Verbum
– a qual, por isso, vai ser tema da XXVII Semana Bíblica
Nacional, a realizar de 22 a 27 de Agosto de 2004.
 |
O Movimento de Dinamização Bíblica
e o Fr. Inácio de Vegas
Lopes Morgado
A
iniciativa do lançamento do Movimento de Dinamização
Bíblica, em Portugal, deve-se ao carismático Padre Inácio
de Vegas, da Província espanhola de Castela. Foi
providencial a sua vinda para o nosso país, em 1936, pois o
Apostolado Bíblico em Portugal, por essa altura, no que se
refere à edição e divulgação dos Livros Sagrados, era
quase um exclusivo das igrejas de confissão protestante.
Andarilho e contemplativo, exigente consigo e afável com os
outros, hábil em conseguir financiamentos e profundamente
pobre, especulativo e prático, atento à vida e desprendido
dela - o Padre Inácio foi, durante vários anos, «o
movimento bíblico». Nunca perdia a esperança quando os
critérios dos seus superiores pareciam opor-se ao
imperativo que em consciência julgava ser de Deus. E sempre
encontrou forma airosa de os harmonizar, sem muito inflectir
o rumo da sua opção. A violência interior, que por vezes
se teria que fazer, acabava mesmo por lhe reacender o ideal
e retemperar a coragem, ou fazer surgir novas iniciativas.
«Menos palavras dos homens e mais Palavra de Deus» era o
seu lema. Não esquecendo que a Palavra de Deus, tendo
encarnado, continuava a querer servir-se das mediações
humanas. As suas primeira edições bíblicas datam de 1951:
«Concordância dos Evangelhos. Jesus meu Caminho, Verdade e
Vida» (Famalicão); e «História de Jesus segundo a
concordância dos Evangelhos. Pensamentos do Santo Evangelho
para todos os dias do ano» (Beja). Em 1955, nasce a
editorial «Difusora Bíblica» e a revista «Bíblica»,
cujo primeiro Director é o Padre Gabriel de Castro D'Aire:
tem 32 páginas ilustradas a preto e branco e uma tiragem de
3.000 exemplares, é trimestral (quatro números por ano).
Nesse ano, o Padre Inácio edita a «História de Jesus»,
que já vai na 6ª edição, e lança, entretanto, os
«Amigos da Palavra de Deus». De 9 a 13 de Abril de 1956
tem lugar, em Fátima, a I Semana Bíblica Nacional de
Estudos Bíblicos. Neste ano, o Padre Inácio de Vegas
inicia a modalidade apostólica dos «Domingos Bíblicos»
por todo o país. Em 1957, a revista «Bíblica» passa a
bimestral (6 números por ano), atingindo, em 1958, 11.000
assinantes. Entretanto, em 1961, nos meses de Agosto e de
Outubro, o Padre Inácio esteve na Madeira e nos Açores
onde desenvolveu diversas actividades ligadas à difusão da
Palavra de Deus. Em 1962, saem três livros organizados pelo
Padre Inácio: o Antigo Testamento Abreviado, A
Oração na Bíblia e o Missal Diário. Em
Setembro desse mesmo mês, têm lugar na Casa dos
Capuchinhos em Fátima, os «Colóquios Bíblicos» para
homens e senhoras, segundo um método que o Padre Inácio de
Vegas tinha ido lançando e apurando em cursos e semanas ao
longo do país. Este método vai ser renovado em 1975,
recebendo o nome actual de «Cursos de Dinamização
Bíblica». É sobretudo a esse apostolado que o Padre
Inácio se dedica em 1963. Em
1964, o Superior Provincial de Castela, com anuência do
Padre Comissário Provincial dos Capuchinhos em Portugal,
pediu ao Padre Inácio para pôr em marcha o Movimento
Bíblico em Espanha. E nesse ano, o Padre Inácio lança, em
Espanha, a fundação da «Difusora Bíblica», em Madrid.
E, em 1966, o Padre Vegas volta definitivamente para a sua
Província na Espanha, nunca deixando, porém, de aparecer
em Portugal por diversas vezes, dando o seu apoio e
estímulo ao Movimento Bíblico. Em Espanha ocupa-se em
abrir novos centros de difusão e estudo da Palavra de Deus.
Em fins de 1967, o Padre Vegas partiu para a Venezuela, onde
se manteve no lançamento do Apostolado Bíblico até 1969.
A sua paixão pela difusão da Palavra de Deus parece não
ter limites e, assim, o Padre Vegas lança no México os
«Colóquios Bíblicos, publica livros, dirige e chefia a
redacção da revista «Orientacion
Bíblica». Em
1989, desde Cidade Victoria, escrevia aos Capuchinhos
portugueses:
«Não
deveis esquecer que a Difusora
Bíblica Portuguesa Beja-Lisboa é o
"berço" de todos os centros bíblicos que se
foram abrindo em Madrid, no México... e deveis continuar
com a batuta na mão, conscientes da vossa vocação,
semelhante à dos intrépidos navegantes portugueses de há
cinco centúrias. Portugal inteiro deve tornar-se pequeno,
principalmente recordando a multidão de pessoas totalmente
nas trevas, às quais não chegou a luz verdadeira «que
ilumina todo o homem», apesar da advertência de São Paulo
a Timóteo (2 Tm 2,9). Podeis ver um sinal dos tempos em
como ultimamente se estão a derrubar muros e fronteiras -
não será também isso para nós um aviso do Espírito
Santo, para que não permaneçamos instalados, encasulados,
mais preocupados em saborear os frutos conseguidos do que em
abrir novos rumos, recordando a angustiosa palavra do
Mestre: «Tenho outras ovelhas...»? (...)

Um
texto de
D. ANTÓNIO MARCELINO
(Bispo Emérito de Aveiro)
A
Bíblia ao encontro
do
Povo Cristão
O
padre Inácio de Vegas, apóstolo da Bíblia, percorreu o País, com
o propósito de levar a Bíblia ao Povo!
A
realização da 25ª Semana Bíblica Nacional avivou-me a memória
de um apóstolo da Bíblia, o Padre Inácio Veigas, capuchinho agora
falecido, que há mais de 50 anos começou a percorrer o País, com
o propósito de levar a Bíblia ao povo e ajudá-lo a descobrir a
riqueza impensável e, também, indispensável da Palavra de Deus,
tanto para o despertar, como para o fortalecer da fé.
A
realização da 25ª Semana Bíblica Nacional avivou-me a memória
de um apóstolo da Bíblia, o Padre Inácio Veigas, capuchinho agora
falecido, que há mais de 50 anos começou a percorrer o País, com
o propósito de levar a Bíblia ao povo e ajudá-lo a descobrir a
riqueza impensável e, também, indispensável da Palavra de Deus,
tanto para o despertar, como para o fortalecer da fé.
Assim
se iniciou, de maneira persistente e mais tarde organizada, uma
acção que não parou mais e se traduz num movimento de
dinamização bíblica, animado por encontros, semanas de estudo,
retiros, a nível nacional e diocesano, e por milhares de grupos
bíblicos espalhados pelas paróquias. As edições da Bíblia
multiplicaram-se, as publicações sobre temas bíblicos são já
muitas, o trabalho ecuménico, centrado na Bíblia, rompeu muros, a
partir da experiência comum entre a Igreja Católica e diversas
confissões protestantes na Expo ‘98 e a publicação da Bíblia
ecuménica.
O
Concilio Vaticano II, pela constituição conciliar sobre a
Revelação Divina, chamou a atenção para a importância da
Palavra de Deus na vida dos cristãos e da Igreja, realçando a
importância de inúmeros documentos do magistério eclesiástico,
publicados ao longo de séculos, merecendo entre eles uma especial
referência as cinco grandes encíclicas, de Leão XIII (1893) a Pio
XII (1943).
Para
a Igreja, a Palavra de Deus, que chega até nós pela Revelação,
é a força que a conduziu ao longo de vinte séculos e a conduzirá
permanentemente. Nem a liturgia, nem a acção pastoral, nem as
diversas actividades apostólicas podem dispensar a iluminação e o
alimento da Palavra. De igual modo, não se pode pensar numa vida
cristã coerente e comprometida com Cristo e com a missão que Ele
confiou à Igreja, sem o dom, e a força da Palavra, tornada vida e
ao serviço da Vida.
Quando
se tem consciência da importância definitiva da Palavra de Deus,
logo se compreende o cuidado da Igreja em que ela não se adultere,
não se desvirtue, não se torne dependente de interpretações
subjectivas ou meramente afectivas e superficiais. Cuidado este que
foi por vezes exagerado e privou muitos cristãos do contacto normal
com a Bíblia, não recebendo a sua riqueza senão a partir de
mediações, nem sempre suficientemente esclarecidas. A pobreza da
fé de muita gente, na sua vivência e no modo de se exprimir, é
carência manifesta de Palavra de Deus.
Porém,
quando a semente cai em boa terra, e esta a acolhe como dom e luz de
Deus, até um analfabeto se pode tornar um sábio das coisas
divinas. Tenho visto muitas vezes que assim é. Não me faltam
exemplos do dia-a-dia na minha missão pastoral ao falar com gente
simples, para a qual, tanto a idade avançada como a doença, como
tudo da vida, afinal, ajudam a sedimentar a sua riqueza espiritual,
a partir da escuta atenta da Palavra.
Quando
um dia indaguei de um homem, entrevado irreversivelmente havia mais
de quarenta anos, analfabeto de letras humanas, mas detentor
visível da sabedoria do Espírito, a razão da sua serenidade e da
sua paz, ouvi para não esquecer mais: “Escuto cada domingo, na
telefonia, com muita atenção, a Palavra de Deus, guardo-a bem no
coração e vou mastigando ao longo da semana. Então o coração
vai-se-me abrindo, sou feliz e sei que, mesmo que viva para aqui
abandonado, Deus gosta de mim...”
Uma
Bíblia em cada casa, lida, meditada e rezada, é sempre uma riqueza
para os que nela vivem, uma força reconciliadora, um ponto de apoio
para tudo o que a vida traz, uma fonte inspiradora de sentimentos
nobres e elevados. É a Palavra viva de um Pai que quer felizes os
seus filhos. Na memória da história da salvação dos que
descobriram que Deus esteve com eles, experimentamos nós a certeza
de que é o mesmo Deus que conduz a nossa história.
D. António
Marcelino
Bispo Emérito
de Aveiro
(in
«Notícias de Beja», 12.09.2002)
. |